segunda-feira

de caber

O meu poema é um lugar
onde me recosto
cabe a mim e a mim cabe
Eu me caibo no meu poema
geralmente

O meu poema é lugar
onde tu te recostas
cabe também a ti e a ti também cabe
Tu cabes no meu poema
geralmente teu

O poema é o nosso lugar
recostamo-nos e nos cabemos
cabe a nós
geralmente

domingo

dedicatória em mau portunhol ou nós-poeta

Ôe quem vem lá, quem vem lá
sou eu, só eu
que não sei de nada e portanto pergunto
mais por saudade que falta de assunto
qué se pasa, cabrón, como le va
a quantas anda e
como correm as coisas nessa beirada de mundo
Minha irmã, mi hermano
desde hace tantos años
vocês que um dia me llamaron poeta
de um jeito tão bonito, tão à toa
como chamassem meu nome
como assim, de fato, eu fosse
Me chamaram poeta, me sorriram e me abraçaram
e nos choramos felizes
como sempre e hasta siempre
Choramo-nos num instante eterno, como
eternos são os nossos instantes, como
eternas se fazem as coisas quando ganham nome
como eu ganhei
Poeta, eu
que nada sei,
que
tanto andei e busquei até que
fui encontrado nos seus abraços, en vossos afectos
no nome que me deram no dia em que
me apresentaram a mim.
A vosotros, irmão e irmã
a vocês que tanto los quiero
eu queria dizer algo de fantástico, de formidável
algo que desvelasse segredos, descobrisse verdades, que apontasse um norte
mas eu não sei nada assim
eu não sei de nada
eu não sei nem de mim
por isso ofereço o que tenho

amplos vazios, longos silêncios

as entrelinhas

meu peito, um quintal sem muros
campo aberto, uma vale encruado na serra

uma baía de ondas mansas
pra que se acheguem, aportem e descansem de tantas viagens
descarreguem os sonhos, as vontades e
contradições que trazemos conosco
cantemos e povoemos com as boas e más intenções
as esperanças, os desgostos

"Amigo é casa", e yo soy una casa abierta
a ustedes a quién yo llamo amigos
a quem chamo hermanos
a vocês que me fizeram poeta, eu,
que não sou, vocês,
que não são: somos

Superados os tombos, somados os tomos
concebidos fomos nas brechas
amantes fecundos e inventores de mundos,
celebramos juntos a chegada de tantos janeiros, fazemos festas
Nosotros somos
da fruta os gomos
da história o Cronos
irrefreados, incontidos, incoerentes, incomuns,
múltiplos, diversos, variados,
o nós-poeta: um.