quinta-feira

Choveu

aconteceu quando deixou de representar e
passou a reconhecer
quando em vez da diferença
a semelhança

quando viu que repartir não era ir-se reiteradamente
assim como remissão não implica retrabalho, tarefa
mas alívio
que não se conquista,
goza-se
e que sonho e objetivo, quando ditos com o mesmo propósito
traem-se
porque não dizem o mesmo

foi quando disse irmão pela primeira vez sem que o sugerissem
e se sentiu maior
a soma dos apenas
conjunto dos sós
assomou-se-lhe um conforto
uma paixão

aconteceu quando, ao se recriar,
recreou-se
e descobriu
que um bilhete de guardanapo vale mais que três vias rubricadas
e deixou a convicção para os que dela se valem

viu a noite chegar resfriando o dia por cima
e o dia voltar aquecendo a noite por debaixo
tomou conta
de um e de outro
e notou que tomar conta tem mais de dar que de tomar

viu a nuvem
ouviu a nuvem
bebeu da nuvem
virou nuvem, deu conta
de si, aconteceu
nublou-se
choveu.

segunda-feira

patifaria

Todo poema é uma assertiva contra a mesquinhez
é dispor-se
porque a poesia...
a poesia será o que tiver de ser no peito da gente, como sempre foi
na mente, por sobre os ombros
nas palmas das mãos e nas solas duras dos pés, no umbigo
no ventre, por favor,
por favor um café quente
grosso de cortar com faca
puxe uma cadeira, assente-se
e conte uma mentira que seja, mas das boas
dessas que a gente vira e mexe se apega, se apaixona
não só por conveniência
que paixão e conveniência dificilmente se dão

um brinde, irmão,
uma ode à patifaria da vida
que se espraia
cozida nas mentes, servida nos corpos
que amam, correm, dançam, abraçam, caem,
e morrem
não necessariamente nessa ordem, mas
geralmente sem ser necessário, sem precisão
como o poema

que pode ser uma sacola de laranja
que rasga no meio da rua com o sinal prestes a abrir
ou no ônibus cheio quando chega a curva,
a roupa do rei nu,
ou a crise de soluços na conclusão da defesa
pausa, tropeço,
pedra no caminho, na contramão,
atrapalhando o tráfego
atrapalhando o fluxo
fôlego pra terminar a frase longa e sem pontos ou vírgulas
como as que me vem
quando você passa
ou quando o árbitro marca contra o meu time
patifarias, meu filho
tudo patifaria!
coisa besta, sem valia
de um nada por propósito, vazia
mas que mexe, vira,
vira e mexe na gente, alma vadia
dizia o mestre
"o mundo não dá a ninguém inocência
nem garantia"


de caber

O meu poema é um lugar
onde me recosto
cabe a mim e a mim cabe
Eu me caibo no meu poema
geralmente

O meu poema é lugar
onde tu te recostas
cabe também a ti e a ti também cabe
Tu cabes no meu poema
geralmente teu

O poema é o nosso lugar
recostamo-nos e nos cabemos
cabe a nós
geralmente

domingo

dedicatória em mau portunhol ou nós-poeta

Ôe quem vem lá, quem vem lá
sou eu, só eu
que não sei de nada e portanto pergunto
mais por saudade que falta de assunto
qué se pasa, cabrón, como le va
a quantas anda e
como correm as coisas nessa beirada de mundo
Minha irmã, mi hermano
desde hace tantos años
vocês que um dia me llamaron poeta
de um jeito tão bonito, tão à toa
como chamassem meu nome
como assim, de fato, eu fosse
Me chamaram poeta, me sorriram e me abraçaram
e nos choramos felizes
como sempre e hasta siempre
Choramo-nos num instante eterno, como
eternos são os nossos instantes, como
eternas se fazem as coisas quando ganham nome
como eu ganhei
Poeta, eu
que nada sei,
que
tanto andei e busquei até que
fui encontrado nos seus abraços, en vossos afectos
no nome que me deram no dia em que
me apresentaram a mim.
A vosotros, irmão e irmã
a vocês que tanto los quiero
eu queria dizer algo de fantástico, de formidável
algo que desvelasse segredos, descobrisse verdades, que apontasse um norte
mas eu não sei nada assim
eu não sei de nada
eu não sei nem de mim
por isso ofereço o que tenho

amplos vazios, longos silêncios

as entrelinhas

meu peito, um quintal sem muros
campo aberto, uma vale encruado na serra

uma baía de ondas mansas
pra que se acheguem, aportem e descansem de tantas viagens
descarreguem os sonhos, as vontades e
contradições que trazemos conosco
cantemos e povoemos com as boas e más intenções
as esperanças, os desgostos

"Amigo é casa", e yo soy una casa abierta
a ustedes a quién yo llamo amigos
a quem chamo hermanos
a vocês que me fizeram poeta, eu,
que não sou, vocês,
que não são: somos

Superados os tombos, somados os tomos
concebidos fomos nas brechas
amantes fecundos e inventores de mundos,
celebramos juntos a chegada de tantos janeiros, fazemos festas
Nosotros somos
da fruta os gomos
da história o Cronos
irrefreados, incontidos, incoerentes, incomuns,
múltiplos, diversos, variados,
o nós-poeta: um.
 

segunda-feira

de conhecer

Meu amigo
você não tem que me provar nada que
eu mesmo nada tenho pra te provar de volta
a gente não se explica, amigo
quando muito, se compreende
e mal
nesses tantos dias prontos a aguardar
esses tantos dias prontos
e ponto
com o final que se afasta e se afasta até
que se farta e
encerra
sem erro, prenúncio, sem cena, sem nada
sem prefácio, sem profeta,
sem tempo pra crise, pra guerra, o final e a mochila de vazio que traz consigo
e joga no nosso colo, a pós-meta
esse vazio de tanto nada que pesa
não pesa, amigo?
apesar destas e outras, aquelas e as que virão
a pesar
a cingir, a balbuciar, a
restringir o
frêmito, o berro, o latido latente
a gana premente, o ganido de, quem sabe, um ser reluzente
que se esconde, mas também se expande
o horizonte ainda sombrio e escuro, mas adiante,
o desejo e a pressa e a contingência do instante
um livro na estante e as palavras, palavras e palavras
Sigamos atentos, amigo
às sabotagens que impingimos a nós mesmos
nós que nos gabamos, nós que corremos o mundo
que compomos canções, que tiramos lições
e que levamos a vida ordinária de tantos outros como
nós que nos distraímos em frações de segundo
Às vezes me parece, mas só parece
que o problema do mundo é ter mais certezas que amigos
não acha?
eu também não, só às vezes
que eu também não sou lá muito bom com certezas
também não sou lá muito bom com o mundo e
convenhamos, o mundo também não é lá muito bom,
só às vezes
Sigamos, amigo
que pelo visto é o que nos cabe
mas não a eles,
eles que a gente bem conhece
eles não, que é isso que esperam, ou melhor,
é com isso que contam
e a gente nunca foi pra se contar, amigo
pro bem ou pro mal, nunca fomos, admita
a gente não se explica
quando muito, se compreende
e mal
Sigamo-Nos
que pelo visto é o que vale.

terça-feira

AmaNara

Uma varanda,
uma varanda pra amar Nara
que Nara é pra amar na varanda
em noite de lua
que Nara quer ver a lua
e a lua quer ver Nara

o sorriso de Nara, a pele dela, a dança, o suor que pontilha
os bicos dos peitos de Nara olhando pra lua
e a luz prateada da lua refletida no colo dela, nos dentes dela, no pingente de santo,
o corpo de Nara, o beijo da lua, a boca dela
me prender nos seus cachos, suas teias, nós
Nara de Salvador, linda,
do calor e das águas da Bahia
menina-deusa, Odara, ornada de jóias, sedas e pinturas alegres

Uma varanda pra amar Nara, que Nara é pra amar
e quando chegar o sereno, quando a noite amainar, 
um samba dolente,
de poucas notas, de poucos versos,
pra falar da beleza e da pureza, do samba, da noite,
da mulher que sonha na varanda
um samba pra embalar o sono de Nara
o sono da lua.

segunda-feira

de maré

Na parede da sala não faltavam belas molduras
e rúbricas e títulos dentro delas
na mesa, contracheques, convites e cartas recebidas
algumas sequer abertas
artigos pra ler, artigos pra publicar, artigos em geral
estantes repletas de livros e retratos em boa resolução
Europa, Ásia, feriado em Bariloche, summit na California, a turma de formandos,
o festival em Gramado, o casamento, o batizado e a primeira comunhão dos filhos.
Troféus e medalhas das corridas e maratonas: cinco, dez, quarenta, oitenta km
honra, mérito e louvor.

mas a maré encheu
e não sabia nadar.

quinta-feira

Diaver

os que sabem de tudo e dizem que sim e os que sabem de tudo e dizem que não
a razão
brusca, tola e indelicada
haverá
sempre
uma manhã oportuna - espero -
alguma coisa que falta - ou não -
e outra justa que a complete - ou não também -
haverá um homem gordo deitado na grama lendo o jornal
tempo pra pensar, há de ter
e mais ainda pra não pensar
o tempo, solto no mundo sem depender de ninguém como
a manhã, haverá
sempre
referências tanto pro bem como pro mal e
pra mais um punhado de coisa que não cabe nesses dois
latidos de cachorro e
um desejo danado, uma agonia, uma decisão a tomar
choro e alegria, pranto e júbilo
tudo junto e misturado, sim, haverá
Festa!
sempre, regozijai-vos
regozijai-vos pois haverá
quem diga, quem teime, quem cisme
uma menina, uma árvore, um horizonte pintado numa parede descascada
mil motivos e uma canção pra cada um
jovens eloquentes, chatos, uma bela tradição e
risadas
livres e oportunas como a manhã e o tempo
haverá gargalhadas sonoras, escancaradas
farra e coisas sem lugar
e um, ou dois, ou dez pra encerrar (ou tentar) tudo em caixas e prateleiras
haverá esses, geralmente eloquentes, geralmente chatos
a obsessão pelos pontos finais
e para eles: risadas
caixas e prateleiras delas
abertas e despencadas
haverá sempre
ramos que se esticam até quase entrar pela janela
frases adequadas
e outras que escapam
e todo tipo de gente a tropeçar nelas
vidros e telhas quebradas e complexos mosaicos compostos
o risco, o traço, a chuva boa de fazer dormir
haverá
e a iminência é fôlego,
ladeira que desce, o fundo invisível do ralo, o vão no teto que areja a
vida, a pluma
apesar e por causa dela
haverá
a manhã, o tempo, a risada
sempre

Preguiça

A preguiça me prendeu, me impediu
me roubou linhas, versos, estrofes todas
uma manhã inteira.

"Isso não é direito", pensei num salto
e disse: "vá pro inferno preguiça!"

ela me riu toda saliente, dona de mim, dona do mundo
bocejou larga,
como não coubesse fazer outra coisa,
riu outra vez, agora com desprezo, passou a mão na minha bunda
e acabou o poema.