segunda-feira

miudez

Sim, doutor,
Sou alto, magro e até um tanto curvado
Mas não,
com todo respeito,
apesar do porte de mastro, me desculpe a falta de jeito,
não sirvo pra carregar bandeira
Eu que vivo sem lastro, sem eira nem beira,
com menos idade do que aparento ter
e muito mais do que fiz pra merecer,
tenho o quengo vermelho esturricado dessa soleira braba
o chão sob os pés largos e as mãos calosas da enxada
Tenho as veias saltadas, doutor, repare
de todos esses anos que enterrei minha fé no chão
não por despeito aos guias, santos, gurus e padres,
mas, ouça doutor,
foi sempre a terra que me garantiu o pão,
o milho, a batata-doce e o feijão,
a ração pro pato, pra vaca, pra galinha, pro porco, os bichos do quintal
Eu tenho tão pouco, doutor, não me leve a mal,
não careço de mais
Me bastam as manhãs brancas da névoa que descola dos morros e o murmúrio noturno dos animais
Aliás, em noite de minguante, que o escuro é mais pesado e a solidão aperta
eu até penso por um instante em acender velas e recitar as rezas
E lembro dos velhos, dos tempos distantes
do passado que a gente não mexe porque não existe mais
Ah, doutor, me desculpe outra vez,
mas fique o senhor com suas cantorias e danças cerimoniais
e os textos complicados dos partidos de um lado e de outro, de cima e de baixo
não sei de muita coisa
e ainda assim me atrapalho se me perguntam o que acho
não é desprezo, doutor, me entenda,
é que sou bicho bruto, galho seco, torto, brotado no barro duro
só quero evitar problema
sou rude feito casca de tronco e não tenho prática com dilemas
minhas roupas puídas, ralas
não servem pra estampar brasões, símbolos ou emblemas
conheço nada das leis, história, revoluções e poemas
Conheço a terra e o que nela dá, se plantado no tempo certo
a alegria da primeira brota
o verde que varia nas capoeiras, várzeas, baixadas, nas cabeceiras, nas grotas
o tempo, se chove ou se permanece aberto,
e a sanha ferrenha com as ervas daninhas e alguns insetos
Sinceramente, doutor, esse monte de coisa de que o senhor tanto fala
é tudo muito bonito
chega incandeia a alma da gente, admito
quem sabe um dia o senhor me convence e eu acredito
e saio por aí repetindo essas suas histórias
mas por enquanto
fico com o facão, a foice, o podão e o machado
a crueza dos dias empoeirados
e a miudeza de uma vida sem glórias.
Cá, sossegado no meu canto sem bandeiras,
só a conversa dos bichos e a brisa fresca
que farfalha nas flores arroxeadas dos manacás, jacatirões e quaresmeiras.