segunda-feira

das poucas coisas

É tudo que temos. Parvas crianças magras e castanhas. Sorrisos e dentições incompletos. Lotes de vida em porções pediátricas. A escrita como escape supura. Chaga aberta. Inflamam-se os nervos e a pele rasga. Nadamos porque gostamos ou porque nos obrigam, que a margem é horizonte lá com a utopia. Repetimos sem revelia o que nos dizem os que se disseram sábios algum dia. Nosso sonhos nascem velhos e cheios de varizes. Talvez sejamos meros quadrantes do miasma cíclico de andar sobre a terra. Nascemos e morremos não mais especiais que bichos ou plantas, mas infestamos como praga. Infeccionamo-nos. Toda esperança é de um fim e não por si mesma. Atributos turbulentos e cálices sacados contra o muro. Cacos bóiam em poças bentas. Me pediram coerência e retruquei com poemas. Silêncio obsequioso aos obsequiosos. Cochichos argutos às orelhas surdas e mal lavadas. Passaram por nós e não deixaram recado. Sequer cumprimentaram. As pazes feitas com os ofendidos costumam ser aceitas por quem propõe. Vanguardeiros da boa vontade e acordos intrépidos. Desvario genérico por órbitas decantadas. Me recomendaram que parasse, mas foi aí que me entreguei. Um salto livre ao abismo suposto. Queda inerte de peito aberto no chão. Minhas costelas perfuraram os pulmões e meu fôlego ganhou força junto à brisa e as aves e tomou o rumo dos rios nos vales. Aqui o ar é rarefeito e, por isso, os corpos se movem mais rápido embora não haja pressa. Nada é preciso desde que não se queira ter. Divagações prontas a sabotar os que se outorgam razão. Desconexões nervosas e neurônios afoitos. A moita quando balança é sinal de bicho. E bicho bom é bicho solto, pregavam os antigos. Dormi com a revolução e despertei em um apartamento cinza, sem quadros e de janelas embaçadas. É tudo que temos. Não mais que expurgos. Palavras tiradas das traças, guardadas em caixas com fitas de seda grampeadas nas tampas e, por fim, depositadas junto aos leitos das lembranças mais inóspitas. Epitáfios latentes. Viver é para viver e ver como se vive. Como se ocupam as plantas e os bichos. O resto é trabalho em demasia. Correr atrás do vento, como cantava o poeta construtor de templos. Um santo que me valha e um bom argumento de algum documentário. Hoje cedo plantei uma árvore. Meu livro chamei “vida” e escrevo quando posso, já meu filho foi abortado com dois meses por condições incompatíveis com a sobrevivência. Sorrio. Gargalho alto, com a boca escancarada certo dos próximos golpes. Calejaram-me os ossos com o cerrar de pestanas. Me reviro de onde só poeira se levanta. Alergia incólume e hérnias ardidas. Corroído pelo tempo impávido e impassível. Olhos afundados no meio da cara, emoldurados por olheiras roxas e negras. Maturidade deve ser o conjunto de decepções que colhemos com o passar das idades. Goles largos e tragos demorados. Vida é igual fumaça de cigarro que parece ter linha até que dispersa. Cheguei em casa e vi uma aranha de jardim do tamanho de uma mão na parede. Logo acima um escorpião em nada menor. Estudaram-se horas a fio. Tantas que dormi. Do que aconteceu sei apenas que não estão mais na parede. Na briga não há lado que não tenha medo, ou que o medo não o tenha. Confiança é palavra que nutre o que não sentiríamos por nós mesmos. Amo. Apesar e também por causa de tudo. Amo. Que amar deve ser um bom meio de se distrair e dar passos. Amo imprudentemente porque prudência e amor não existem para se amar. Parte do que sinto uso, a outra deixo guardada para quem souber o que fazer dela. Não choveu, mas o rio subiu. Em janeiro dá manga de fazer lama. E no quintal é mosca que não acaba. Meu cachorro se chama Jair e adora manga. E as moscas adoram Jair. Ele não é violento, mas é perigoso. Outro dia chegou com um pedaço de orelha de outro cão. Briguei com ele e ele pareceu entender. No dia seguinte Jair brigou de novo. Metafisicamente e subatomicamente tudo é vai e volta, conta a canção de beats e remixes que vão e voltam. Só você foi e não voltou. Eu e Jair permanecemos no alto da serra com as cigarras e os gaviões. Nossa solidão recíproca, a falta de divergir e a estupefação contínua com a continuidade de nossa existência. É tudo que temos. Não sei se queria ter mais, mas fazer mais, nisso cheguei a pensar. Passou. Uma vez quis dizer que todo mundo devia dizer o que quisesse. Quando fui dizer, disseram antes de mim. Tentei de novo e outra vez, mas falaram na frente. Quis, então, que todos se calassem para que eu dissesse que todos deveriam dizer. Me desculpe pelos fragmentos. Tentei ser coerente mas soou falso. Minha sinceridade se expõe nos impulsos. E para escrever há que ser sincero. Mesmo nos devaneios. Por isso cuspo texto como quem lança bombas. Estilhaços febris, vultos em traços talhados. As pessoas na sala de jantar se ocuparam de nascer até que morreram. A mesa posta, talheres e pratos e a fome resiliente dos pequenos furtos para cobrir reles gastos. Me deram as mãos com cortes pelos pulsos e antebraços. Palhaços soturnos e tendas obscuras. Cacos por todos os cantos e cadáveres nos flancos. Eu que esperei tanto e exprimi tão pouco. Hoje tampouco tampo os loucos gritos roucos desgarrados da alma que atende por mim. Essa semana, além da árvore que plantei hoje cedo, desmontei o armário. Achei fotografias velhas comidas por bichos que comem as coisas velhas. Eu, agora, só como o que se enterra. Batata, cenoura, mandioca, beterraba e tudo quanto é qualidade de raiz brava. Que é pra lembrar de você que só comia folhas e enjoava com leite. Me deleito, assim, com a lembrança tua. E feito os bichos das velhas fotos, me nutro da cor de nossos dias passados. Um vulto seu ainda baila e arrasta cheiro na casa. Confesso que prefiro tua lembrança a tua presença. Fica mais simples. Eu, Jair e tudo que temos. Cachoeira é bonita quando é violenta, mas ribeirão é que dá peixe. Tinha um computador pra escrever. Papel é melhor. Tropeço gravemente nas linhas como a água da cachoeira nas pedras verdes de musgo e o papel sente. Rabiscos conspícuos. Tudo o que risca fica e, mesmo o que apaga se vê. Papel se machuca, se afunda. Escrevemos como vivemos. Marcas de ânsias distribuídas à força sobre superfícies vulgares com que temos contato. O revés da folia. Saia branca de cambraia e batuque de alfaia na rua. É o que se vê daqui. Distante e adiante. No centro do vale que a água cavou. Em terra de cegos quem tinha olho vendeu. Plebes vendetas arrogantes se consagram nas noites de coliseu. Colisão que apazigua os meus e teus temores. Odores. Morfeu tripudia sobre as nuvens pesadas de granizos em séquitos. Insetos a zumbir aureolam o sono da tarde. Reagentes desidratados. Embriagados os sentidos. Sentado, fica a vontade e só ela. Uma rezadeira alva logo chegará com a ordem do dia. Repitamos. Uma, outra vez e quantas forem necessárias. Riscos e perigos contidos. A respiração trôpega. Vi o sol cair por todos esses anos. O por do sol é presente, mas o nascer é conquista. A bicharada em berros, a neblina úmida que pesa sobre os telhados. Os seres alados em mímicas infantis. Ludopédicos, similares e sibilantes. Pólvora e confetes. Mais um dia. Com tudo que temos. Os corpos velhos, magros e castanhos. Meu, de Jair e das crianças de sorriso incompleto.

sexta-feira

Seô

Ê bananeira do rio. Ê bananeira, que estica as folhas por cima dos broto verde de lírio. Ah bananeira, se eu te contasse, se eu te dissesse, bananeira, que o mundo é um rio. E que não é um porque é rio. Então, bananeira, o mundo é rio. Que passa. Sempre. Com tudo que tem nele e que, portanto, é mundo também. Igual eu deitado na pedra e você, bananeira, o mundo, que é rio, passa. A seus modos, há que se dizer. Você, mais que eu, bananeira, sabe. Sabe como o mundo afina no inverno e cresce no verão. Que no verão se vive mais. Dias mais longos, noites mais quentes e todo mundo trepando. As lavadeira, os passarin, os sapo de brejo, todo mundo. Por terra, ar ou água. Por isso quando é verão aqui é inverno em outro canto que o mundo não aguentaria de tanta trepação. Só as filhas do Adauto que não tem data pra trepar. O Adauto, bananeira, pobre do Adauto. Virou mar. Passou feito fio dágua. Tão quieto que só o que se lembra do Adauto são as filha trepadeira. Mar é rio quando deixa de correr pra ficar num vaivém. Por isso rio não chega, mas vira mar. E do mar eu sei pouco. É mundo depois que passa. Muito mal sei desses rios finos da serra, que descem gelados tropeçando pedra abaixo, esses mundinhos encurtados que passam. Sempre. Com tudo que tem neles e que, portanto, é mundo também. Igual eu deitado na pedra e você, bananeira do rio, que estica as folhas por cima dos broto verde de lírio, o mundo é rio que passa. Sempre.
Tem gente que discorda, bananeira, e faz porque faz pra segurar o mundo. E eu e você. Rio não é rio se deixa de passar. E uma hora ou outra, de tanto ser segurado, o mundo se enche e arrebenta com tudo igual tromba dágua. Ainda mais se for verão, quando se vive mais. E aí não tem mais quem discorda. E aí também não tem mais eu deitado na pedra nem você, bananeira do rio, nem os broto verde de lírio. Só o rio. Que passa. Sempre.