quarta-feira

Veiaco

O nome do bicho era Pretinho. Cavalo veiaco que só. Ô cavalo pra ser veiaco. O nome era Pretinho mas depois ele foi ficando pedrês. Depois dos doze anos. Doze anos? Acho que foi doze. Foi doze, foi doze sim. Depois dos doze anos ele foi ficando pedrês, que é quando vai pintando assim, umas pinta vermelhas, do vermelho pro marrom. E aí vai pintando tudo. O Pretinho foi mais da barriga pras pata detrás. Teve parte té que ficou branca, mas era uma mancha só, um trisco. A história começou porque ele tava dormindo assim com a cabeça encostada no pau de arreio. Cê sabe que cavalo dorme assim em pé nas patas, num sabe? É. É assim que cavalo pousa. De pé nas quatro. Só a cabeça... a cabeça e o pescoço descansados prabaixo. E o beiço arreia um cado também. O beiço também, é, arreia. Fica um cado gozado até. E-hê. Os beiço assim, pesado. Mas é assim que eles aprovam de ficar, né? Ê-hê assim que eles dão de sossegar. De pé. Tem gente até que quando vê cavalo deitado diz ser mau sinal, de mau agouro. Que o bicho não deita nem pra dormir, né? Bobage. Tão só de descanso. Descansando as perna. Que deve cansar também, né? Arruma de dormir de pé você pra ver como não fica. Fica que num guenta nos esquadros. Aí eu tinha de arreiar o Pretinho. Que meu pai tinha mandado. Só que o Pretinho era ruim de arreiar. Ô bicho veiaco. Então foi que eu fui aproveitar que ele tava adormecido ali, com os beiço engraçado. Fui quietin-quietin, com as mão mansas, uma pluma só, mas ele acordou. E cavalo você não pode arreiar dormindo justo porque se ele acorda, não sei se por susto ou por seiláoquê, o bicho sai que sai mandado num tiro. Ô se ataca. Como ataca. Levei foi uma carrêra do Pretinho, que nesses tempos quase não tinha pinta ainda, como daqui até naquela canela sebosa. É sebosa que quando você espeta o tronco dela com o facão ela escorre um sebo assim. Tem a canela-sangue-de-boi também. Que quando você espeta sai um sebo escuro que parece mais sangue de boi até que o sangue do boi mesmo. Mas aí o Pretinho me deu uma carrêra danada que eu só me escapuli porque tinha um pé-de-ingá ladeira abaixo e aí eu garrei foi com tudo no galho do pé-de-ingá. O pretinho passou que passou batido. Foi parar só lá embaixo na beira do ribeirão. Eu não queria não, mas tinha que ir atrás, né? O pai tinha mandado. Tinha de ir. Eu fui. Mas o Pretinho era um cavalo filho-da-puta. Ê cavalo pra ser filho-da-puta! Era eu chegar pra próximo com a corda que ele entrava mais na água. Cavalo filho-da-puta. Tive que tirar a roupa pra entrar ribeirão adentro e passar a corda por debaixo dele. Ê-hê dia danado. Bom de lembrar, mas viver de novo... dispenso. Ô. Só é bom porque é lembrança. O cavalo não parava quieto. Uma rebeldia que só. Arisco toda vida. E na altura do rio que a gente tinha se metido formava um poço. Desses fundos, fundo mesmo. Desses que no meio, de tão fundo, fica uma escuridão que não deixa ver o que tem nem quando é inverno e a água é mais clara. E pra piorar, fazia mês de entrada de chuva. Uns ventos fortes até, mas era mais a chuva que caía nessas datas. Era capaz mesmo de estar chovendo na cabeceira do rio, que as nuvens chegavam tá cor de chumbo de tão armadas que tavam pros cantos de lá. Eu já tinha amarrado o Pretinho, mas ele entrava cada vez mais pro fundo. Até hoje não sei o que teve aquele bicho nesse dia. A outra ponta da corda eu tinha deixado amarrada numa arvrinha na beira do rio. De modo que chegou uma hora que o bicho de tão arredio foi dar no fundo escuro do poço e aí foi um desespero só. A corda esticou num puxão que me jogou longe. Não cheguei machucar sério, mas bati com o cotovelo numa pedra que abriu um rasgo e doeu tanto, mas tanto que a dor rebatia na orelha do outro lado. O cavalo sumiu uns dez segundos e depois voltou a aparecer, mas só o focinho e a ponta dos cascos afoitos. A arvrinha, tadinha, envergava valente na outra ponta. Corri até ela e inda tentei puxar o Pretinho, mas além de não ter força inda queimei as palmas da mão tudo na corda. A arvrinha prestes a se arrebentar e o cavalo aparecia cada vez menos. Aquela agonia danada e foi aí que eu pensei. Eu carregava pra-cima-e-pra-baixo um canivetinho que o padrinho tinha me dado. Eu cortava a corda e deixava o cavalo lá e depois falava a meu pai que o bicho desembestou pro rio e o rio levou. Tava doido. Devia de ter comido erva-de-rato. Uma plantinha de umas flor miúda e colorida que dá no meio do pasto. Boi quando come mija sangue até morrer. Cavalo eu não sei, mas deve de ficar doido. É isso. O pai tinha de acreditar, afinal, na prática das coisas foi quase isso mesmo com um ou outro acento a mais ou a menos na feitura da prosa. E foi isso que eu fiz. Além do mais, eu também, com as mãos e o cotovelo estrupiados, não podia mais que assistir a agonia do bicho que sumia e voltava do meio daquela pretidão de água. O canivetinho era meio-sem-vergonha, mas até que serviu. A corda meio cortada meio mordida correu pra dentro dágua serpenteando igual cobra aflita. Já eu, senti a alma voltar igual a arvrinha que, foi eu cortar a corda, se aprumou do tronco. Não sem antes se rebater de um lado pro outro igual vara verde. Não vi mais o Pretinho. E aí quando dei conta que não via mais o bicho despreguei a chorar sem fim. Um choro soluçado mas tão soluçado que, pra você ver, lembro até hoje. Dava uns trancos fortes no peito assim. E eu era ainda um fiapo, aí que me sacudia todo mesmo de soluço. 

Agora era só o barulho do rio e do vento nas folhas. Nem parecia que algum dia tinha entrado cavalo ali. As coisas quando tão calmas tem o costume de se parecer como elas são todos os dias. A mansidão deve ser o pra que elas nascem. É o jeito normal das coisas esse jeito de ser manso. Pelo menos na maioria dos dias ou quando a gente tá olhando. Não fossem as nuvens pretas pros cantos da cabeceira, parecia um dia como todos os outros. Os soluços amenizaram, mas eu ainda tava chorando quando desarmei o resto de corda que ficou na árvore, alisei o tronco pra ver se não tinha ficado marca e escondi o resto de corda debaixo de uns lírios do brejo que cheiravam de tanta brancura das flor. Que se alguém desse com aquela corda ali, por certo minha história do cavalo desgovernado ficaria descabida. Lavei o rosto pra voltar pra casa, mas ainda fiquei um par de horas a olhar pro meio do poço. Sentia que a qualquer momento o Pretinho ia subir de lá num relincho só e ia trotar e rolar as costas no pasto até secar de todo. E aí seria um milagre. Um desses que dão gosto de contar pros outros. E eu que nunca tinha visto milagre nenhum. Magina? Fiz até umas rezas que a vó tinha me ensinado. Mas eu só lembrava umas partes soltas. Acho que milagre pra acontecer a reza tem que ser rezada por completo. Do contrário não tem milagre. Diacho de cavalo veiaco. Eu té que tinha simpatia dele. Gostava de reparar no jeito gozado que dormia com os beiço mole e o rabo naquele pra-lá-pra-cá batendo varejeira. No caminho de casa o rasgo do cotovelo começou a doer mais forte e eu ia repetindo “tománocu-filhadamãe-filhodaputa, tománocu-filhadamãe-filhodaputa, tománocu-filhadamãe-filhodaputa” que parecia diminuir a doência. E também porque eram os únicos palavrões que eu sabia. E só sabia que era palavrão porque minha vó Nélia corria com a vara atrás da gente se a gente dissesse alto ou pra alguém. Palavrão só podia quando era a mãe que dizia pro pai. Quando era assim a vó Nélia ria de balançar a barriga murcha e até batia palma tamanho gosto que fazia.

Mas aí que vem a melhor parte. Quer dizer, melhor parte pra mim. Perto de casa, na cerca que dava pro milharal, adivinha quem tava todo molhado ainda e puxando os milhos pelos cabelos pra dentro da boca? Ê-hê cavalo velhaco danado! Cavalho filho-da-puta! Saí numa carrêra que até me esqueci do cotovelo. Pedrês danado! As pintas chegavam brilhar no pelo preto molhado. A corda ainda com uma ponta das pontas amarradas no torno do bicho. Deve ter sido arrastado pela água até mais embaixo, quando o leito do rio se esparrama pros lados. Enlarguece e fica mais raso. E aí o Pretinho deu pé e voltou. Assustado mas inteiro e ainda por cima laçado. Peguei na ponta solta da corda e o bicho veio comigo. Manso-manso que nem parecia ter aquela arisqueza toda de mais cedo. Veio até a entrada de casa, onde amarrei no pau de arreio. Foi então que o pai chegou da roça. “Nito, garoto danado! Onde é que cê tava? Falei pra arreiar o cavalo mas era só. Banho não. Passei a manhã toda na espera desse cavalo. A manhã toda! Anda. Lava as mão e vamo almoçar que sua vó Nélia Ta nervosa. De tarde volto pra roça e cê vai levar esse cavalo com umas sacas pra mim. Onde já se viu? Peste. Ê-hê”.

quinta-feira

de mel


Você pode me contar sobre os seus amigos e sobre como eles mudam o mundo
desde que não te irritem os meus bocejos
você também pode me explicar porque aceitou seu último trabalho
se estiver claro que não fui eu quem cobrou justificativas
Me mande cartas e eu lerei com carinho
mas não aguarde respostas
O meu amor é canção em partitura
lindo e mudo
Deixo contigo meu silêncio e meu rosto
o rosto pra ter de quem lembrar quando o que for te fizer falta
e o silêncio porque no silêncio tudo cabe e o silêncio tudo abriga
tuas esperanças cruas, ansiedades  precoces e os juízos livres de critério

A quem perguntar
diga que estou bem, ou melhor
diga que não vou bem como aparento, que sinto saudades e que tenho planos
é importante falar sobre planos e
se puder, diga de modo grave que é pra fingir ser sério
As pessoas gostam de quando falam sério com elas
faz que se sintam sérias também e elas gostam de se sentir assim.
Enfim, diga como quiser e isso talvez lhes renda a conversa de uma tarde vazia.
Preencher as tardes é uma arte
sobretudo quando se levanta cedo e a manhã, com a alegria disposta e besta que as manhãs tem,   se encarrega das coisas importantes, das coisas primeiras
A tarde somos nós e tudo que não é importante
as coisas que ficam pra depois desde antes de existirem as coisas primeiras
A tarde é quando o dia, de lição feita, não vê a hora de deitar

Hoje a tarde eu vi uma sempre-viva no alto da serra e lembrei de você
porque a sempre-viva é bonita
e você também é
Tive vontade de te ver
mas eu tenho vontade de tanta coisa
essa carta, por exemplo, queria que fosse em soneto, pra parecer séria como as pessoas gostam e    você gostar de mim
mas a vontade torna as coisas igual o mel que empedra na garrafa
que é doce mas não escorre e deixa a gente sem sentir o gosto
se fosse pra ser em soneto essa carta não escorreria
seria muito séria e eu não sou sério
nem você
Somos do tipo que escorre
como as coisas sem vontade e os juízos sem critérios,
como os seus amigos que mudam o mundo são e nem se tocam
como a minha lembrança do teu rosto no meu silêncio
como as tardes vazias.

segunda-feira

miudez

Sim, doutor,
Sou alto, magro e até um tanto curvado
Mas não,
com todo respeito,
apesar do porte de mastro, me desculpe a falta de jeito,
não sirvo pra carregar bandeira
Eu que vivo sem lastro, sem eira nem beira,
com menos idade do que aparento ter
e muito mais do que fiz pra merecer,
tenho o quengo vermelho esturricado dessa soleira braba
o chão sob os pés largos e as mãos calosas da enxada
Tenho as veias saltadas, doutor, repare
de todos esses anos que enterrei minha fé no chão
não por despeito aos guias, santos, gurus e padres,
mas, ouça doutor,
foi sempre a terra que me garantiu o pão,
o milho, a batata-doce e o feijão,
a ração pro pato, pra vaca, pra galinha, pro porco, os bichos do quintal
Eu tenho tão pouco, doutor, não me leve a mal,
não careço de mais
Me bastam as manhãs brancas da névoa que descola dos morros e o murmúrio noturno dos animais
Aliás, em noite de minguante, que o escuro é mais pesado e a solidão aperta
eu até penso por um instante em acender velas e recitar as rezas
E lembro dos velhos, dos tempos distantes
do passado que a gente não mexe porque não existe mais
Ah, doutor, me desculpe outra vez,
mas fique o senhor com suas cantorias e danças cerimoniais
e os textos complicados dos partidos de um lado e de outro, de cima e de baixo
não sei de muita coisa
e ainda assim me atrapalho se me perguntam o que acho
não é desprezo, doutor, me entenda,
é que sou bicho bruto, galho seco, torto, brotado no barro duro
só quero evitar problema
sou rude feito casca de tronco e não tenho prática com dilemas
minhas roupas puídas, ralas
não servem pra estampar brasões, símbolos ou emblemas
conheço nada das leis, história, revoluções e poemas
Conheço a terra e o que nela dá, se plantado no tempo certo
a alegria da primeira brota
o verde que varia nas capoeiras, várzeas, baixadas, nas cabeceiras, nas grotas
o tempo, se chove ou se permanece aberto,
e a sanha ferrenha com as ervas daninhas e alguns insetos
Sinceramente, doutor, esse monte de coisa de que o senhor tanto fala
é tudo muito bonito
chega incandeia a alma da gente, admito
quem sabe um dia o senhor me convence e eu acredito
e saio por aí repetindo essas suas histórias
mas por enquanto
fico com o facão, a foice, o podão e o machado
a crueza dos dias empoeirados
e a miudeza de uma vida sem glórias.
Cá, sossegado no meu canto sem bandeiras,
só a conversa dos bichos e a brisa fresca
que farfalha nas flores arroxeadas dos manacás, jacatirões e quaresmeiras.

das poucas coisas

É tudo que temos. Parvas crianças magras e castanhas. Sorrisos e dentições incompletos. Lotes de vida em porções pediátricas. A escrita como escape supura. Chaga aberta. Inflamam-se os nervos e a pele rasga. Nadamos porque gostamos ou porque nos obrigam, que a margem é horizonte lá com a utopia. Repetimos sem revelia o que nos dizem os que se disseram sábios algum dia. Nosso sonhos nascem velhos e cheios de varizes. Talvez sejamos meros quadrantes do miasma cíclico de andar sobre a terra. Nascemos e morremos não mais especiais que bichos ou plantas, mas infestamos como praga. Infeccionamo-nos. Toda esperança é de um fim e não por si mesma. Atributos turbulentos e cálices sacados contra o muro. Cacos bóiam em poças bentas. Me pediram coerência e retruquei com poemas. Silêncio obsequioso aos obsequiosos. Cochichos argutos às orelhas surdas e mal lavadas. Passaram por nós e não deixaram recado. Sequer cumprimentaram. As pazes feitas com os ofendidos costumam ser aceitas por quem propõe. Vanguardeiros da boa vontade e acordos intrépidos. Desvario genérico por órbitas decantadas. Me recomendaram que parasse, mas foi aí que me entreguei. Um salto livre ao abismo suposto. Queda inerte de peito aberto no chão. Minhas costelas perfuraram os pulmões e meu fôlego ganhou força junto à brisa e as aves e tomou o rumo dos rios nos vales. Aqui o ar é rarefeito e, por isso, os corpos se movem mais rápido embora não haja pressa. Nada é preciso desde que não se queira ter. Divagações prontas a sabotar os que se outorgam razão. Desconexões nervosas e neurônios afoitos. A moita quando balança é sinal de bicho. E bicho bom é bicho solto, pregavam os antigos. Dormi com a revolução e despertei em um apartamento cinza, sem quadros e de janelas embaçadas. É tudo que temos. Não mais que expurgos. Palavras tiradas das traças, guardadas em caixas com fitas de seda grampeadas nas tampas e, por fim, depositadas junto aos leitos das lembranças mais inóspitas. Epitáfios latentes. Viver é para viver e ver como se vive. Como se ocupam as plantas e os bichos. O resto é trabalho em demasia. Correr atrás do vento, como cantava o poeta construtor de templos. Um santo que me valha e um bom argumento de algum documentário. Hoje cedo plantei uma árvore. Meu livro chamei “vida” e escrevo quando posso, já meu filho foi abortado com dois meses por condições incompatíveis com a sobrevivência. Sorrio. Gargalho alto, com a boca escancarada certo dos próximos golpes. Calejaram-me os ossos com o cerrar de pestanas. Me reviro de onde só poeira se levanta. Alergia incólume e hérnias ardidas. Corroído pelo tempo impávido e impassível. Olhos afundados no meio da cara, emoldurados por olheiras roxas e negras. Maturidade deve ser o conjunto de decepções que colhemos com o passar das idades. Goles largos e tragos demorados. Vida é igual fumaça de cigarro que parece ter linha até que dispersa. Cheguei em casa e vi uma aranha de jardim do tamanho de uma mão na parede. Logo acima um escorpião em nada menor. Estudaram-se horas a fio. Tantas que dormi. Do que aconteceu sei apenas que não estão mais na parede. Na briga não há lado que não tenha medo, ou que o medo não o tenha. Confiança é palavra que nutre o que não sentiríamos por nós mesmos. Amo. Apesar e também por causa de tudo. Amo. Que amar deve ser um bom meio de se distrair e dar passos. Amo imprudentemente porque prudência e amor não existem para se amar. Parte do que sinto uso, a outra deixo guardada para quem souber o que fazer dela. Não choveu, mas o rio subiu. Em janeiro dá manga de fazer lama. E no quintal é mosca que não acaba. Meu cachorro se chama Jair e adora manga. E as moscas adoram Jair. Ele não é violento, mas é perigoso. Outro dia chegou com um pedaço de orelha de outro cão. Briguei com ele e ele pareceu entender. No dia seguinte Jair brigou de novo. Metafisicamente e subatomicamente tudo é vai e volta, conta a canção de beats e remixes que vão e voltam. Só você foi e não voltou. Eu e Jair permanecemos no alto da serra com as cigarras e os gaviões. Nossa solidão recíproca, a falta de divergir e a estupefação contínua com a continuidade de nossa existência. É tudo que temos. Não sei se queria ter mais, mas fazer mais, nisso cheguei a pensar. Passou. Uma vez quis dizer que todo mundo devia dizer o que quisesse. Quando fui dizer, disseram antes de mim. Tentei de novo e outra vez, mas falaram na frente. Quis, então, que todos se calassem para que eu dissesse que todos deveriam dizer. Me desculpe pelos fragmentos. Tentei ser coerente mas soou falso. Minha sinceridade se expõe nos impulsos. E para escrever há que ser sincero. Mesmo nos devaneios. Por isso cuspo texto como quem lança bombas. Estilhaços febris, vultos em traços talhados. As pessoas na sala de jantar se ocuparam de nascer até que morreram. A mesa posta, talheres e pratos e a fome resiliente dos pequenos furtos para cobrir reles gastos. Me deram as mãos com cortes pelos pulsos e antebraços. Palhaços soturnos e tendas obscuras. Cacos por todos os cantos e cadáveres nos flancos. Eu que esperei tanto e exprimi tão pouco. Hoje tampouco tampo os loucos gritos roucos desgarrados da alma que atende por mim. Essa semana, além da árvore que plantei hoje cedo, desmontei o armário. Achei fotografias velhas comidas por bichos que comem as coisas velhas. Eu, agora, só como o que se enterra. Batata, cenoura, mandioca, beterraba e tudo quanto é qualidade de raiz brava. Que é pra lembrar de você que só comia folhas e enjoava com leite. Me deleito, assim, com a lembrança tua. E feito os bichos das velhas fotos, me nutro da cor de nossos dias passados. Um vulto seu ainda baila e arrasta cheiro na casa. Confesso que prefiro tua lembrança a tua presença. Fica mais simples. Eu, Jair e tudo que temos. Cachoeira é bonita quando é violenta, mas ribeirão é que dá peixe. Tinha um computador pra escrever. Papel é melhor. Tropeço gravemente nas linhas como a água da cachoeira nas pedras verdes de musgo e o papel sente. Rabiscos conspícuos. Tudo o que risca fica e, mesmo o que apaga se vê. Papel se machuca, se afunda. Escrevemos como vivemos. Marcas de ânsias distribuídas à força sobre superfícies vulgares com que temos contato. O revés da folia. Saia branca de cambraia e batuque de alfaia na rua. É o que se vê daqui. Distante e adiante. No centro do vale que a água cavou. Em terra de cegos quem tinha olho vendeu. Plebes vendetas arrogantes se consagram nas noites de coliseu. Colisão que apazigua os meus e teus temores. Odores. Morfeu tripudia sobre as nuvens pesadas de granizos em séquitos. Insetos a zumbir aureolam o sono da tarde. Reagentes desidratados. Embriagados os sentidos. Sentado, fica a vontade e só ela. Uma rezadeira alva logo chegará com a ordem do dia. Repitamos. Uma, outra vez e quantas forem necessárias. Riscos e perigos contidos. A respiração trôpega. Vi o sol cair por todos esses anos. O por do sol é presente, mas o nascer é conquista. A bicharada em berros, a neblina úmida que pesa sobre os telhados. Os seres alados em mímicas infantis. Ludopédicos, similares e sibilantes. Pólvora e confetes. Mais um dia. Com tudo que temos. Os corpos velhos, magros e castanhos. Meu, de Jair e das crianças de sorriso incompleto.

sexta-feira

Seô

Ê bananeira do rio. Ê bananeira, que estica as folhas por cima dos broto verde de lírio. Ah bananeira, se eu te contasse, se eu te dissesse, bananeira, que o mundo é um rio. E que não é um porque é rio. Então, bananeira, o mundo é rio. Que passa. Sempre. Com tudo que tem nele e que, portanto, é mundo também. Igual eu deitado na pedra e você, bananeira, o mundo, que é rio, passa. A seus modos, há que se dizer. Você, mais que eu, bananeira, sabe. Sabe como o mundo afina no inverno e cresce no verão. Que no verão se vive mais. Dias mais longos, noites mais quentes e todo mundo trepando. As lavadeira, os passarin, os sapo de brejo, todo mundo. Por terra, ar ou água. Por isso quando é verão aqui é inverno em outro canto que o mundo não aguentaria de tanta trepação. Só as filhas do Adauto que não tem data pra trepar. O Adauto, bananeira, pobre do Adauto. Virou mar. Passou feito fio dágua. Tão quieto que só o que se lembra do Adauto são as filha trepadeira. Mar é rio quando deixa de correr pra ficar num vaivém. Por isso rio não chega, mas vira mar. E do mar eu sei pouco. É mundo depois que passa. Muito mal sei desses rios finos da serra, que descem gelados tropeçando pedra abaixo, esses mundinhos encurtados que passam. Sempre. Com tudo que tem neles e que, portanto, é mundo também. Igual eu deitado na pedra e você, bananeira do rio, que estica as folhas por cima dos broto verde de lírio, o mundo é rio que passa. Sempre.
Tem gente que discorda, bananeira, e faz porque faz pra segurar o mundo. E eu e você. Rio não é rio se deixa de passar. E uma hora ou outra, de tanto ser segurado, o mundo se enche e arrebenta com tudo igual tromba dágua. Ainda mais se for verão, quando se vive mais. E aí não tem mais quem discorda. E aí também não tem mais eu deitado na pedra nem você, bananeira do rio, nem os broto verde de lírio. Só o rio. Que passa. Sempre.