quarta-feira

Descarga

Tais quais
profecias de anos sabáticos astrais
régios ditames, bulas paradoxais
as elegias cativas
de todos os dias
Pascais
aristotélicos fenômenos neurais
parassintéticos discursos urbano-sócio-virtuais
emergem
e prescrevem
Aliás
litigiosos que carimbam os papéis oficiais
estampam os jornais, em termos gerais,
no topo das colunas sociais
Vis metais,
Códigos amorais,
Uísque, gelo e peitos artificiais
pra quem esperava mais,
tanto faz
ainda caem as migalhas do que restou das noites invernais
auroras boreais
milagres subatômicos dos cafés matinais
se eles passarão, não se sabe
os passarinhos já não mais cantam devido as efeitos colaterais
almocreves banais
a glosa da paz retinida nas medalhas e sorvida nas goelas secas de generais
Ah o tempo lá de trás...
hoje refeito, encorpado e com a esperança cálida que fosse jamais
Ao futuro
a taça quebrada e o líquido derramado que ali jaz
Capaz
da menina dos olhos brandir
a supernova em contagem regressiva para explodir
Dalí, os rios, elefantes e relógios surreais
a lua, os satélites e os seres alados em órbitas ovais
As regalias aos vituperados sequer constam nos anais
cerrados os olhos, secas as gargantas
ficaram as lembranças alaranjadas dos colos maternais
nascentes rumo ao cais
o ocaso sacrílego da madrugada e a brisa fria que agita as roupas nos varais
pra quem esperava mais,
tanto faz.

sexta-feira

Passarin

é que a gente fica contente
quando cedo,
inda mais se tiver quente,
um passarin vem cantar no pé de amora.

Ele pousa, pisca o olho,
uma, duas, três vezes,
se apruma, bate as asas, enche o peito
e cantarola

E a gente fica ali,
olhando feito bobo
Trinca-ferro, tangará, tuí-tuí,
canário, coleiro, sabiá... bicho é bonito se tá solto
que aí quando canta é porque quer
Pra dizer que tá feliz ou então
só pra cantar mesmo
que cantar é bom
pra ele que tá lá em cima
e pra gente que ouve aqui do chão.

Tem gente com alma de passarin
uns olhos vivos, curiosos, bem pretin
que nem semente de juçara
gente rara
do tipo que anda leve e se diverte com farra
gente boa de ter por perto igual passarin no pé de amora
que alegra a gente quando chega
e deixa saudade quando vai embora.

sábado

Fumaça

E se não fossem, Romero, os tantos impérios
tantos ditos, mitos, ritos,
quantas leis, outorgas, veredictos. E se não fosse, Romero?
não fossem os santos critérios para tantos mandatos
solenemente escolhidos, definidos e benzidos
em atos
Celestialmente aprovados, remidos de fato.
Conselhos, concílios, conclaves, com toda lisura e as paredes de ouro rubro.
Se não fossem, Romero, tantos muros,
as bandeiras, a santa fé, a santa madre, a santa igreja
Não fossem os bruxos, não fossem as fogueiras. Veja, Romero,
a gente atulhada nas praças,
as forcas, as preces, as graças, Romero.
As ciências, as tribos, os livros, as traças.
Não fossem os cavalos e a eucaristia,
os templários, as marias, o oriente e os guias, o que seria, Romero?
Os castelos, os templos,
as terras, os tronos, e se não fosse Trento?
E se não fossem os deletérios da Babilônia, os Sumérios, a Macedônia, Constantinopla, e se não fosse Jerusalém? Amém, Romero.
Não fosse César, não fosse Paulo ou Pedro,
Francisco, Bento ou João,
Não fossem os sãos, não fosse o medo.
E o poder, Romero,
se não fosse, Romero?
E se não fosse
 

terça-feira

mansa

Vem, menina, pode vir
Achegue-se. Assim mesmo. Pode ser
Devagarinho, mansa
Como quem não quer nada
que não é de muito que se precisa.
Isso. Uma por uma.
Sem esforço ou trauma
sem pressa
Sementes vulgares dispersadas pelo vento
caem dos galhos quando os frutos já não são fortes ou
quando a seiva amarga.
Ainda assim, vem
que a terra é quente e úmida
Germina e cria raiz nesse monte de terra solta
que é para a gente ver flor bruta na poeira.
Cresce mais um bocado, e dá outras tantas flores
Até que não sejam mais bonitas
ou não tenha frutos tão sadios.
Então que caiam de novo as sementes
gentis, assim
Devagarinho, mansas
Como quem não quer nada
que não é de muito que se precisa.