quarta-feira

viço


Não fosse a sorte de exprimir como artifício
seria apenas morte. perigosa e difícil
nesse tempo em que me faço forte ainda que um tanto omisso

Peregrino rumo ao norte, tomo fôlego nos interstícios
Espinhos, pedras, cortes,
alma-sangue e sacrifício.
Implicam com meu porte, com o rigor de meu ofício

Não peço que concorde, mas respeite
Muito menos que se importe, é tão somente o deleite
de esquecer-me no próprio vício

terça-feira

Brincadeira de palavra

(recomenda-se ler em voz alta. Fica mais divertido)

Embriões heterogênos oligarquicamente cafusos
para cabeças ludopédicas arrefecidas de 
um visgo denso sufragado dos eitos perplexos
de onde sibiilam vértices trôpegos em rota descompassada

Bucólicos, decifram julgos bezuntados, juízos latentes
esparsos por longínquas vagas mar adentro
Icosaedros ordenados em dodecassílabos tênues feito uva fosca
Equilíbrio em vertigem transfusa, boba, decaída de cerâmicas coloridas, flores impassíveis e fins de tarde rascunhados em carvão. 

Solilóquios oclusos silentes em si
sonham com cantigas fastigadas pelo suor de cascatas rubras cheirando a sândalo. 

quinta-feira

Expectativa

Um dia me deram quadro branco e pincéis e me pediram que pintasse o futuro
Mas eu só tinha cores do presente e  passado
Ao quadro chamei expectativa

Aritmética

Eu gosto dessa nossa coisa de ser dois
ou um.
Ou dois em um
Ou um em dois.

Talvez, quem sabe,
dois que em um cabem.
Ou um
que se divide
e em dois reside.

Não sei.

ô conta danada de se explicar
que só de pensar dá nó
mesmo que, aqui dentro, tão só se resolva
calma e mansa
feito água de lagoa
simples e fácil como um e um são dois, ora pois

Você um mais eu um: dois
Nós dois
ontem, hoje e (por que não?) depois:
Um

terça-feira

Às meninas da mata




Ôxe que essas nêga da perna grossa
de lá da chapada, no alto da roça,
Se toca um baião
num há homem que possa
E elas fazem choça do pobre rapaz,que,
Coitado, não é capaz
de acompanhar o ritmo das menina
Que, ainda por cima,

Se esbaldam na farra,
nas festas do circo, nos reggaes na praça
Toda graça só cabe a elas
Os vestidos, as saias e a poeira nas canelas
de quem rompeu o dia a brincar de forró

Ô saudades dessas flô cheirosas
Metidas, brabas, mas sempre dengosas

Que saudades das tardes gostosas

Dos almoços, licores
a vida à toa na mata contando de antigos amores
Ah irmãzinhas queridas
aqui na cidade continuo com essa vida
Levando, esperando...

Quem sabe um dia
um jipe sujo descarregue de novo na vila
um gigante bobo e magrelo
sem camisa e de chinelo pra pegar a trilha do rio
beber pinga no frio
e viver debaixo desse sol amarelo.

quinta-feira

Papo com mar ou Conversa de quem vai longe


Que tens, mar?
Que trazes de novo?
Que as vagas de longe me contam daquele distante povo?

Ouvi dizer de uma mulher com asas
que se banha toda manhã à beira do rio
Ouvi também de uma flor carpideira
que vive na areia, gosta de gente e de bicho no cio

A gente de lá, mar,
É boba como a de cá?
Queria saber
Queria ser mar pra entender
Pra me espichar em ondas até as beiradas de areia
Conter em mim corais, lendas e, por que não, uma baleia
Espiar mulher alada, gente braba e flor danada
E espelhar a luz de quando a tarde cala

Se me tornasse mar
Viveria por aí, pelo mundo
sem jamais deixar de beijar minha terra
Seria como quem erra, profundo
em ondas que sempre voltam
Que me trazes, mar, dos que te tocam?
Dos que navegam
Tu que abrigas tantos destinos
Me conta histórias de velhos e meninos
que por ti vivem
E contigo choram