terça-feira

Alvorada


Os primeiros repiques da caixa reclamam o dia que se esconde atrás dos morros
Bêbados, gringos e belas pretas se animam às primeiras frases dos trombones e clarinetes
À frente, velhos e velhas empunham o baluarte enquanto crianças gritam, comem e dançam frenéticas e despreocupadas numa procissão alegre.

Salve São Sebastião!

O padroeiro abençoa os que dançam descalços nos paralelepípedos.
Aqui o chão é de pedra e terra
E a algazarra é do lado e fora do coreto.
A rua é dos corpos suaos e vibrantes,
É de uma alegria suja de terra e cheirando a pinga e mel.
É de um povo que toma a praça, se abraça e deseja axé,
É de jaca, pimenta, manga, pitanga e cerveja.
Aqui se sorri, se beija, se briga e rebola
Aqui tem samba, batuque, forró e arrocha

Cant, ô nega!
Canta pro santo que o galo acorda!
Canta e se entrega que a vida é boa e hoje é domingo
Canta mãe, canta fiha, canta avó e canta tia
Canta nativo, turista, homem e mulher feia ou bonita
Canta que hoje é permitido!
Canta que o sol já venceu a neblina e revela as olheiras do povo festeiro
Canta que a tuba já marca os últimos baixos do compasso
Canta agora em janeiro e, se possível, segura o tom até fevereiro e março
Canta mais uma canção!
Canta sobre essa gente que pulsa por entre morros e serras
Canta sobre a força e magia desse lugar
Canta e acende as velas
Porque hoje, no Capão, é dia de São Sebastião