domingo

Suscetível




Vou jogar tudo pro alto
Afinal,
Se tudo que sobe tende a cair,
É fundamental que se suba.

Suba e se renove nos ares frescos do alto
Se esparrame no espaço sem domínio e
Alcance o ápice
O átimo em que o corpo se abandona, o fôlego falta
e se esmorece...

E que então caia!
Despenque e experimente o delírio dos suicidas
e o próprio peso apresse a queda
Descuide-se das expectativas e
Convalesça sobre o inevitável, até que...

Enfim,
Sinta o amparo do que vigia
e vigiou todo o tempo.
A certeza das mãos seguras prestes a lançar novamente

E outra vez
Alto!
Cada vez mais

Pontuando a plena perspectiva celeste
Tonteando no leve ziguezague astral
Alto!
Por sobre tudo que, de cima, é tão pequeno
Tão vulnerável
Tão pronto a
Subir

terça-feira

Infante

Eu gosto de você
E você gosta de mim
A vida podia ser simples assim

Uma casa em cores primárias
Uma árvore com flores bordadas
Galhos tortos que descem à altura das crianças
Um moleque descalço e
Uma menina de trança

Água pra quem tem sede
Frutas pra quem tem fome
Redondas, espichadas, coloridas, divertidas
Diferentes
Que no marasmo das tardes quentes
É pra gente brincar de dar nome

Acordar com o sol
Dormir com a lua
Deitar juntinho e te ver sempre nua
Fazer carinho

Carinho doce
Na pele doce
Do corpo doce
Quem dera se a vida fosse
Simples assim
Como eu gosto de você
E você gosta de mim

quarta-feira

Melodia

Serena meu dia, melodia cadente
Descansa meu peito, eleva minh'alma
e dissipa as angústias em fumaça solta

Repousa na alegria dos acordes maiores
Dispensa a melancolia dos menores e a tensão das sétimas e
Deixa que, numa valsa espontânea,
Um tanto de mundo preencha esse vazio de espírito

Na varanda pardais pontuam varais como pauta
Pregadores encerram compassos enquanto
Cada voo marca uma pausa
Breve, semibreve, de um tempo inteiro.
O vento assobia no tom
Delicadamente, agora
Distante, o mar rege a métrica de fortes brumas
Melodia solene...
Ouço, longe, aplausos de galhos agitados
Sinto suas últimas linhas em meus músculos moles e mornos

Como orvalho na terra
caia sobre este corpo em agonia e se derrame em poças de ideias leves
Serena meus sonhos, melodia tranquila
Até que eu acorde sob doces devaneios em neblina

quinta-feira

Os beija-flores nunca foram tão belos

Um poema de 2006 que mais do que a qualquer alguém, eu me devia...



Ontem as estrelas se foram "com ar" de satisfeitas

E hoje,
Se o sol parece ter o dobro do tamanho no céu... é porque o está orgulhoso em anunciar as bençãos do novo dia.
Se a brisa corre serena no espaço... é porque existe um corpo quente de peito fervente a acalentar.
Se os pássaros compõem suaves melodias... é porque acordam entusiasmados e embalam sonhos de insones amantes.
Se as flores se espreguiçam à luz da aurora... expõem suas pétalas desejando recordar o pobre mambembe da beleza de sua menina.

E se os Beija-Flores nunca foram tão belos...

Compreendes muito bem o porquê.

terça-feira

Alvorada


Os primeiros repiques da caixa reclamam o dia que se esconde atrás dos morros
Bêbados, gringos e belas pretas se animam às primeiras frases dos trombones e clarinetes
À frente, velhos e velhas empunham o baluarte enquanto crianças gritam, comem e dançam frenéticas e despreocupadas numa procissão alegre.

Salve São Sebastião!

O padroeiro abençoa os que dançam descalços nos paralelepípedos.
Aqui o chão é de pedra e terra
E a algazarra é do lado e fora do coreto.
A rua é dos corpos suaos e vibrantes,
É de uma alegria suja de terra e cheirando a pinga e mel.
É de um povo que toma a praça, se abraça e deseja axé,
É de jaca, pimenta, manga, pitanga e cerveja.
Aqui se sorri, se beija, se briga e rebola
Aqui tem samba, batuque, forró e arrocha

Cant, ô nega!
Canta pro santo que o galo acorda!
Canta e se entrega que a vida é boa e hoje é domingo
Canta mãe, canta fiha, canta avó e canta tia
Canta nativo, turista, homem e mulher feia ou bonita
Canta que hoje é permitido!
Canta que o sol já venceu a neblina e revela as olheiras do povo festeiro
Canta que a tuba já marca os últimos baixos do compasso
Canta agora em janeiro e, se possível, segura o tom até fevereiro e março
Canta mais uma canção!
Canta sobre essa gente que pulsa por entre morros e serras
Canta sobre a força e magia desse lugar
Canta e acende as velas
Porque hoje, no Capão, é dia de São Sebastião