segunda-feira

Rascunho de enredo pra morena ou Misto de Clarice e Kundera




Naquela noite o samba saiu. E ao contrário do samba de Chico, ele não procurava ninguém, mas mesmo assim encontrou. Fosse ou não a mais bonita, pouco importa. Logo se fez a favorita e, por consequência, dona da noite, do dia seguinte e do outro dia e do outro e do outro e do próximo...

Era um ambiente de poucos conhecidos, muita festa e pouca luz. Propício à criação de um personagem minimamente agradável, afinal, como diz Clarice (adoro citar só o primeiro nome, dá um ar de intimidade) na hora de sua estrela, a mentira faz parte da boa educação. Porém, apesar do álcool e otras cositas más lhe conferirem aquele conhecido ar de liberdade e rebeldia aos vinte e poucos anos, de repente se pegou cego em meio à penumbra. Aquele que ousava ser dono de si, agora era guiado por alguma outra coisa, que lhe conduzia através dos sentidos que lhe restavam além da visão. No olfato, um perfume que quereria sentir por quanto tempo mais lhe fosse permitido. Nos ouvidos, sambas sem fim. Nas mãos outras mãos pouco menores e uma pele de fruta que, embora o escuro, sabia ser morena pela maciez e o gosto do suor que tocava a boca vez ou outra. Uma dessas sensações inexplicáveis porém convictas em si mesmas e completas de sentido, ainda que extremamente subjetivo - a saudade ao ver um navio se despedir do porto, a esperança de um sol que nasce, o sorriso que se abre e os olhos que se fecham com o canto de um pássaro invadindo o quarto pela janela.

O que o cegava, contudo, não era a pouca luz, mas aqueles olhos. Aqueles olhos de espelho. Naqueles olhos que o seduziam a ponto de cegá-lo, ele só via: ele mesmo. Se encontrava consigo nos olhos dela. E ela o mesmo nele. Por este motivo tornaram-se, ambos, súditos dos olhos um do outro. Não por pieguice e tampouco por alguma espécie de narcisismo, pelo contrário: por não verem a si mesmos ali, pelo menos não como se conheciam, como estavam habituados, mas como o outro olhar lhes apresentava. Um novo ele e uma nova ela.

Se conheceram em pleno verão carioca. O calor que por vezes beirava o insuportável os fazia suar toda vez que se encontravam. O suor. A seiva da intimidade, o produto dos que se querem. O mesmo que lhe garantira a morenice dela era o que tornava mais ébrio e, portanto, mais gostoso o contato entre os corpos. Em meio ao purgatório de quarenta e poucos graus, ele tentava garantir o caos já que a beleza ficava toda por conta dela. Se surpreendiam constantemente com a naturalidade com que se davam. Da mesma forma como um cachorro não aprende a abanar o rabo, um pássaro não tem aulas de canto e um bebê não treina o choro, mas mesmo assim já o fazem perfeitamente desde que descobrem o mundo aqui de fora, os dois não se conheciam, não aprenderam um sobre o outro, mas sabiam meticulosamente o que e como fazer na hora exata que compunham um daqueles momentos que valem um texto, quadro ou canção. Da ingênua conversa à beira mar à cama, eram como um casal de bailarinos cujos passos já seriam todos previstos e executados com excelência numa dança leve e descompromissada por um extenso salão. Estreitavam a distância entre as dicotomias. O escuro se tornava nítido e claro - preferiam se descobrir de olhos fechados - os abraços mais apertados ainda gozavam de certa frouxidão e o peso dos corpos ganhava uma leveza insustentável quando enroscados.

Novamente relembrando Clarice, eu poderia ter começado essa história por um fim que justificaria o começo - como a morte parece dizer sobre a vida - contudo, assim não o faço. Primeiro porque ainda não tiveram um fim. Depois, porque não precisam de um fim que os justifique. Vivem com uma intensidade desesperada. Como quem não economiza vida com medo de que a morte chegue mais rápido. Eles não temem a morte. Talvez por isso essa história não encontre final.