domingo

Grã




palavras pequenas,
amenas,
sementes apenas
emblemas de paixões ingênuas,
serenas,
morenas.

sábado

(Indivíduo)s


Só um
sem dois
não há soma que dê

Só dois
sem um
é um só que se vê

Três só é são se
com dois ou com um
O zero sozinho
nem mesmo é nenhum

Não há rei de terra sem
quem lhe dê poder
O eu só existe a partir
do você
Tudo é construído bem
no meio do nada
Mas nada é tudo
quando tudo é piada

Então tudo que é coisa
se une em nós
Pois um só
não existe
quando só se faz só

Boas palavras

um leve surto aventureiro de poesia nesse blog


As palavras tem que ser bonitas.
Belas, leves
Paz

Pra acalmar as idéias, suave
a brisa que refresca, eleva
a ponto de voar, planar

Enquanto a alma bebe sílabas
descola do corpo

Decola
flutua, pluma
rumo ao que se lhe revela
Solta ao vento

Pura, nua

As boas palavras tem o poder de despir
As boas palavras conduzem
Por fim, as boas palavras serenam

quarta-feira

Silêncio azul




Lá estava ele. Deitado por sobre as ondas, como um inseto que insiste em manter-se agarrado à toalha de mesa mesmo quando sacudida antes e após as refeições. De nariz e umbigo apontados pro céu, não era nada mais que um corpo estranho boiando na oculto de água salgada. Entregue à sorte das correntes, sentia-se conduzido da costa para lugar algum num trajeto irregular e sem propósito. Uma folha de árvore que se caiu do galho e agora é levada pelo rio.

Não tinha apoio, âncora, rédeas, cordas, cais, porto ou qualquer ponto de referência. Visto de cima, era um ponto no meio do manto azul. E, se visto por baixo: a mesma coisa. Sentia a face queimar do lado de fora da água, mas, com as orelhas imersas, preferia se ocupar com os sons que o corpo fazia ao respirar e alguns gritos abafados de gaivotas distantes.

Quando o sol perdeu o equilíbrio e desandou a despencar do centro do céu, ele arriscou abrir os olhos pra se perder no azul. Já não tinham nuvens, aves, ou contraste que lhe referenciasse. Era uma cegueira azul. Um enorme vazio que o preenchia por completo. Repousado sob uma cama d’água e com todo aquele infinito à frente (ou melhor, acima) sentia a alma gorda. Um balão de ar. Se afogava no azul do céu enquanto flutuava no azul do mar. Abria os olhos e o tanto de mundo o enchia de alma. Fechava os olhos e o tanto de alma o esvaziava do mundo. Chegou a pensar que poderia voar, mas preferia as correntes geladas que lhe corriam pelas costas.

Queria poder expressar aquele momento, mas não sabia como. Queria uma palavra que explicasse. Algum monte de letras que alguém, no passado, tenha juntado ao alcançar aquela mesma sensação. Afinal, “as palavras são conchas de sentimentos passados”.

Não encontrou. Percebeu que era um tempo único. Que ninguém jamais tivera. Pensou, então, em criar um vocábulo pra que toda vez que fosse pronunciado o conduzisse numa espécie de transe de volta para aquele tempo.

Desistiu. Preferiu o silêncio.

Agora, toda vez que o mundo se cala, ele sente a alma inchar perdida no azul.