sábado

Jarbas, a colônia e Mannhein




Brasília é um show! Recheada de grandes performances, a Broadway Tupiniquim “presenteia” a população todos os anos com verdadeiros espetáculos. Sem voltar muitas páginas no calendário, considerando apenas o governo petista, podemos destacar a notável comédia do Mensalão dirigida magistralmente pelo presidente nacional do PTB, Roberto Jefferson, de 2005 para 2006. Aliás, um roteiro desses em Hollywood seria, sem dúvidas, digno das ilustres interpretações dos talentosíssimos e privilegiados intelectualmente Ben Stiller e Adam Sandler. Sem forçar muito a memória, também temos o ballet leve e descomprometido da deputada federal petista Ângela Guadagnin em plena seção da Assembléia Legislativa. Nem mesmo um ser gerado numa rapidinha entre Mr. Catra e Deborah Colker seria capaz de tal atitude vanguardista. Sem mais delongas, deixando de lado um ou outro senador, alguns muitos tucanos, demos e demais legendas, chegamos a 2009. E porra, convenhamos, quem seria a grande estrela escolhida pra inaugurar com brilhantismo a casa de espetáculos mais badalada do país e maior contribuinte para a mídia de direita? Não precisa pensar muito. Exatamente! A putinha mais alegre e saltitante do Brasil, aquela que dá de mamar aos filhotes Sarney, Garotinho, Calheiros e por aí vai... o PMDB. E o nome da vez é (rufem os tambores) Jarbas Vasconcelos. Um dos maiores vendedores de revistas e jornais de todos os tempos da última semana, perdendo apenas para o Flamengo que foi pegar o sabonete no chão e levou uma “lavada” do Resende na disputa das semifinais da Taça Guanabara. Para você que só assiste o Jornal Hoje, ou lê Nova, ou Marie Claire, ou mesmo pra você punheteiro que cansou de gastar com a sofisticada Playboy e apelou para a bagaceira Gata da Hora (de apenas R$4,90) lá vai uma análise-liguei-o-foda-se-resumida do episódio:

Jarbas sempre foi um sujeitinho em cima do muro. Comprou uma briguinha com o partido quando votou pela cassação do menino Calheiros. Fez pose de bom moço para o eleitorado, mas repudia a hipótese de sair do PMDB, que ele mesmo descreve como um partido corrupto “sem bandeiras, sem propostas, sem um norte”, para não perder o mandato devido a lei de fidelidade partidária. Em fevereiro, cheio de boas intenções e angustiado por ser o único a suportar o peso da dignidade e boa fé dentro do partido, Jarbas não aguentou mais reter as lágrimas para si, procurou a redação do veículo de melhor análise e interferência política da imprensa brasileira e chorou suas mágoas. Falou que não confia nos seus coleguinhas de Congresso, que não apóia a candidatura da super-popular e carismática Dilma Roussef (PT), que quer garantir o leitinho da família se ajoelhando e abrindo o zíper do Serra (PSDB), que político é tudo safado, que está cansado de lutar em vão, que o Lula é bobo-feio-e-chato, e tudo mais que soa como melodias harmoniosas para os ouvidos dos excelentíssimos assinantes da Veja.

E aí, garotão, chega a hora derradeira em que esboçamos um sorrisinho de sabichão com segundo grau completo, cruzamos a perna e vomitamos: “Vivemos na democracia. O povo que colocou essa gente no poder. Eles não são nada mais que o reflexo do povo.” Não quero bancar o comunista radical chato defensor dos fracos e oprimidos, mas nessas horas sinto uma sensação como se tivesse uma pulga no ânus (ta, eu nunca experimentei essa sensação, mas imagino como deve ser) e pulo da cadeira com uma questão: reflexo de que povo, cara pálida?

De jaqueta camuflada, bandana e camiseta vermelha recorro ao Alcorão (Manifesto) Comunista quando Maomé, digo, Marx (é, o Engels também assina) observa que o Estado de uma sociedade capitalista atua, basicamente, como o comitê onde são discutidos os interesses e negócios da burguesia. Entenda-se burguesia como conglomerados comerciais e grandes empresas de interesse privado, e não simplesmente aquele seu vizinho que montou uma confecção de calcinhas no quintal de casa e já emprega nove costureiras do bairro (embora ele também possa se encaixar no papel de pequeno-burguês). Enfim, foda-se o seu vizinho por ora.

Acontece que, no Brasil, a maior parte da população ainda sofre de um mal alcunhado por Paulo Freire como “inexperiência política”. Então você me pergunta: “Ora porra! Mas a gente acabou com a ditadura, a gente já fez uma penca de constituições, temos um dos sistemas eleitorais mais avançados do planeta. Inexperiência política tem a sua mãe”. Tudo bem querido, pensemos de maneira um pouco mais devagar. Se introduzir de leve a coisa fica mais fácil. Quando eu estalar os dedos e contar até três você vai estar com cinco anos, nos seus tempos de colégio, na hora do recreio, depois da aula da Tia Rosemere. Imagine que um grupo de coleguinhas chega com um tabuleiro enorme, com figuras fosforescentes, três dados sendo um de seis, outro de oito e outro de doze lados, um livro de senhas com 576 páginas e te convidam para brincar. “puta merda! Eu não sei direito o que é, mas eu sempre sonhei jogar isso!”. O problema, é que seus coleguinhas são os donos do jogo e brincam com ele desde que aprenderam a falar e você, por outro lado, só sabe que as cores são bonitas e gosta de arriscar nos dados. Se fode aí irmãozinho. Vai tomar um sacode dos teus coleguinhas durante o mês inteiro e apesar de não gostar de perder, não vai desgrudar, afinal, o jogo é a sensação do colégio e você não pode deixar de participar. Fim do transe. Agora quando eu estalar os dedos você vai acordar no Brasil colonial. Toda terra que você ousa pisar pertence a algum senhor que, muito provavelmente, a recebeu a baixíssimo custo da Coroa na divisão de Sesmarias, ou mesmo de outros donos de grandes territórios que, por algum motivo ou preguiça mesmo, não puderam cultivar este pedaço de chão. Você olha pro lado e assiste ao massacre de tribos indígenas, milhares de negros escravos vivendo apenas de Pau, Pão e Pano, e as únicas pessoas minimamente (mas minimamente mesmo) ilustradas são imigrantes europeus desejosos de garantir uma pequena fortuna e voltar para seus países de origem. Os rumos da sociedade brasileira são definidos por latifundiários estrangeiros em sua maioria. Não existe reconhecimento por parte do povo como sociedade brasileira, afinal, o homem do povo não tem terra, portanto não vota e não pode ser votado.

Para não te obrigar a ler muitas linhas (eu sei que você detesta), vamos correr um pouco. Passa a abolição, chega 1850 e a Lei de Terras, vai uma porrada de negro, pobre e tudo quanto é coisa ruim ocupar os morros e as zonas periféricas dos centros urbanos, chega a república, as revoltas regionais, a Primeira Guerra, Vargas e etc... Quando a galerinha de Birigui começa então a sacar qual é a da brincadeira, bolar umas jogadinhas malandras que podem dar certo, quem sabe um Jango à frente do Estado aqui, um Luiz Carlos Prestes pela ponta esquerda... Pronto! Fecha tudo. Acabou a palhaçada! Agora é ditadura porque o povo não sabe pensar por si mesmo. Os militares é que tem a razão. A porrada come, um ou outro se exila, surgem boas canções, AI-5... até que chega 1979! Eba! Anistia! Viva o poder do povo! Uhul! É isso aí porra, quero ver quem vai ser macho agora de dizer que a gente não tem consciência política. Traz os caras de volta do exílio, até porque não há ninguém melhor pra representar a população do Brasil do que os caras que fugiram para França. Tá achando o quê? Os caras falam diversos idiomas e têm boa educação. Eles é que devem ser os sujeitos da reconstrução democrática do país, o povo é povo, é objeto.

Há algum bom tempo, Karl Mannhein, discutiu sobre a sociedade rachada em que vivia na época e permanece até hoje. Começou a circular, então, pelas rodinhas alemãs e pelo mundo todo até chegar à ex-Ilha de Santa Cruz o conceito de “democratização fundamental”. Esse fenômeno implica, basicamente, em uma crescente participação do povo no seu processo histórico. No caso, o povo como sujeito, e não objeto. Infelizmente nossa cultura histórica não nos é favorável. Não é de hoje que a sociedade brasileira recebe e aceita a submissão no leite materno. Já nascemos com a mentalidade de que bons são os outros, os ricos, mesmo dentro de nosso próprio país. Um Garotinho e até mesmo um Lula não me representam. Suas políticas paternalistas de bolsa-isso, bolsa-aquilo, restaurante, hotel, bordel popular e etc não garantem o desenvolvimento democrático do povo, apenas o mantém na condição de objeto, que permanecerá inerte em sua posição, recebendo as ações do Governo. Pobre bem alimentado e com casinha nos dias de chuva não late, não rosna e não precisa pensar. Além da mídia espetacular e massificadora e da oposição ao Governo do PT, ninguém precisa de um Jarbas Vasconcelos oportunista pra chegar à conclusão que o Congresso é um grande puteiro. Para evoluir politicamente, a população precisa construir seu próprio conceito de democracia a partir da cultura, educação e direitos básicos, e não por declarações bombásticas sem nenhum objetivo popular além de causar alarde.

Já acabou Jarbas? Então passa a bola porque, como já cantava o Fundo de Quintal, "o show tem que continuar".