quinta-feira

Iscurregô, abaixa e créu!



Vovó nunca gostou que eu andasse pelas ruas de madrugada: “Meu filho, só bandido e puta ficam na rua depois de meia noite”, afirmava ela da altura de seus sessenta e poucos anos de sagacidade. Como todo bom moleque-perdido-sem-futuro-na-vida, nunca levei a sério a cartilha da velhinha, mas também nunca imaginei que, em sua incontestável sabedoria, a mulher de cabelos brancos que me viciou em bolo de fubá tratava, em seu discurso, dos nossos aclamados homens da lei, representantes eleitos democraticamente pela nação brasileira (palmas nessa hora) que circulam pelo bordel respeitosamente apelidado de Brasília.

Assim como churrasco e cerveja, futebol e flamengo, Rio de Janeiro e Ipanema, Vinícius e Tom, Bob e cannabis, Batman e Robin, Xuxa e Sérgio Malandro, foda e madrugada são dois vocábulos indissociáveis. Mas, (pasmem senhores!) ao contrário do que você imaginava, não só as zonas portuárias e as vielas escuras de nossas cidades estão repletas de perigos e bundinhas empinadas! Cientistas do Instituto de Análise Ébrio-Política revelaram ao mundo que no Congresso Nacional, todas as lâmpadas são vermelhas e todos os congressistas são filhos de uma mesma mãe. Esta de muito valor e reconhecimento entre os trabalhadores mal amados do Centro de nossas capitais, principalmente nos horários de almoço e ao fim do expediente. Prova disso, caros camaradas, foi a tentativa de manobra digna de kama sutra executada na madrugada desta quinta-feira, quando, em reunião extraordinária (de madrugada, no Senado? Nunca li uma definição tão perfeita para extraordinária), uma récua de senadores (ta vendo, pra você que acha que político não trabalha em fim de ano) aprovou uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC – uma daquelas siglas que só de ouvir já dão uma pontada na rabiola do cidadão) que acrescentaria 7.343 cadeiras acolchoadas nas Câmaras de Vereadores em todo o país, ou seja, mais dinheiro seu, honrado contribuinte, direcionado diretamente para bolsos de linho.

Já fazia um bom tempo (talvez uma semana inteira) que o nossos representantes não nos bulinavam, então eles optaram por uma rapidinha. Em apenas uma madrugada cumpriram a exigência de dar oito sessões sem tirar de dentro, e gozaram em dois turnos. O movimento de vai-e-vem foi comandado pelo Picão-mor e presidente do Senado, Garibaldi Alves (PMDB-RN), que “abria e encerrava as sessões uma atrás da outra”, como a repórter descreve detalhadamente no site do jornal OGLOBO. Portanto, entenda caro contribuinte, a orgia aprovada pelo vouyer, digo, relator César Borges (PR-PA) traria de volta todos aqueles nobres senhores que não conseguiram o seu lugar ao sol durante as eleições municipais e ainda não alcançaram as tetas de nossa mimosa, gentilmente chamada de Governo.

Como nem a mais calejada das meretrizes agüentaria uma suruba tão vigorosa e desleal como essa, ainda na quinta-feira, mas em horário comercial (sem comentários), a Mesa Diretora da Câmara Federal passou pomadinha e decidiu não promulgar a tal PEC. O presidente da Câmara dos Deputados, Arlindo Chinaglia (PT-SP) devolveu a resolução ao Senado para que seja reformulada e, quem sabe, outro dia, com mais carinho e um pouquinho de manteiga passe pelo Congresso. E é aí, meu patrão, que começa a viadagem (pura força de expressão, sem ofensas aos queridos homossexuais) jornalística. É um tal de "Chinaglia alfinetou o Senado" pra cá, "o clima esquenta no congresso" pra lá, que o leitor dos chamados "grandes jornais" é obrigado a assistir tudo como se fosse uma briguinha familiar por causa do paperview da bundesliga que o marido comprou ou pela bomba atômica que atingiu a conta da família depois que a esposa foi ao shopping com o cartão de crédito. Como diria um grande amigo meu: "Alfinetou" de cú é rola! Se me disserem que o clima esquentou entre as lideranças do Congresso o máximo que eu posso imaginar é que Garibaldi comprou uma cueca de oncinha, ou que Arlindão começou a usar aquelas divertidas bolinhas sexuais que explodem quando... ah, deixa pra lá!

Não é novidade pra ninguém a promiscuidade PT-PMDB, ainda mais quando se trata das relações entre Câmara e Senado. E o melhor de tudo é que se, realmente, os presidentes do Congresso ficarem nesse 0a0, a decisão sobra pro STF. Sim, o STF aquele tribunal mesmo! Isso, aquele presidido pelo sacrossanto Gilmar Mendes. O nosso adorado ministro com rabo preso (sinta-se à vontade para qualquer tipo de interpretação) que deu uma rebolada, fez beicinho, abriu as pernas e concedeu um habeas-corpus para o coitadinho-injustiçado do Daniel Dantas.

Malandro, daqui pra frente, só nos resta tentar segurar as calças com toda força, porque, pelo visto, a trolha é grossa e vem que vem rasgando. Vovó que era esperta e ninguém sabia.