sexta-feira

Gauleses


Um amigo me disse uma vez que os gauleses temiam que o céu desabasse sobre suas cabeças

também contou sobre um outro amigo que perdeu o pai há dois anos
e falamos sobre o peso do céu
a leveza da vida
e a dureza do chão

nos últimos dois anos perdi um avô e um tio
na última semana minha mãe caiu de boca no asfalto e quebrou um braço e três dentes
a dureza do chão
a leveza da vida
os dias em que o céu desaba
a vida tem um gosto de asfalto
os gauleses não entendiam de asfalto
nem minha mãe

mas meu amigo disse que eles entendiam de pedras
e com elas se relacionavam
minha mãe beijou o asfalto
e um outro amigo terminou um relacionamento

não o que perdeu o pai
este sonha com o céu onde diz estar seu pai, meu tio e meu avô
apesar do céu ter desabado sobre sua cabeça quando perdeu o pai

o outro amigo
que terminou um relacionamento
me contou que estava mal
não como minha mãe que quebrou um braço e três dentes
mas como quem vê o céu desabar

ao mesmo tempo estava feliz
porque disse ter visto Deus enquanto o céu desabava
e Deus protegeu sua cabeça da dureza do chão
e então me contou da vida com leveza
me servindo uísque com pedras de gelo
eu achei graça

lembrei que os gauleses carregavam pedras
e que o amigo que perdeu o pai carrega a vida
e que ontem de manhã eu carreguei minha mãe da cama ao banheiro
ela que me carregou no ventre
cheia de graça, cheia de vida

um palhaço disse uma vez que a graça é o que o palhaço quer ter
mas que ninguém tem graça
porque a graça, disse ele, se acha
no encontro
de dois ou mais "eu"s
sem outros
no encontro de "eu"s
ou no encontro D’"eu"s
disse o palhaço
e eu lembrei do meu amigo que terminou o relacionamento

e pensei na graça e leveza das mulheres grávidas e suas barrigas pesadas da leveza da vida de eus

meu avô e meu tio foram enterrados no chão
porque já não tinham vida
e se tornaram pesados e duros

minha avó e minha tia desabaram quando perderam meu avô e meu tio
não quebraram braços nem dentes
mas desde então vivem como se carregassem pedras
e já não falam tanto em planos

eu e meu amigo
que me falou dos gauleses
tentamos falar sobre planos
mas não conseguimos
porque temos medo de que o céu desabe a qualquer dia sobre nossas cabeças
e nos faça de palhaços
sem graça

eu e meus amigos falamos sobre o tal se encontrar na vida
seja lá o que isso signifique
o amigo que perdeu o pai, minha avó que perdeu meu avô e minha tia que perdeu meu tio falam que eles se encontraram com Deus
seja lá o que isso signifique
minha mãe se recupera tomando sopa no canudo e já consegue ir ao banheiro sozinha
os gauleses carregavam pedras
seja lá o que isso signifique
e o amigo que terminou o relacionamento disse ter visto Deus
seja lá o que signifique

minha mãe até hoje me carrega
meus amigos me carregam
a graça se encarrega
eu carrego pedras
de gelo
e uísque

caso o céu um dia desabe sobre nossas cabeças.

quinta-feira

Dúbio

Cessam as certezas
Sobram imprecisões

Me há risco e
só então
me há rumo
há sumo

sexta-feira

costelas

canela fina
pulso baixo
e as costelas, rá!
ai delas

cadência, amor
que cadenciado fica tudo mais gostoso
tudo mais bonito
é peneira
pra ver quem samba no tempo
quem sustenta a pisada

iê, camarada! 
quando foi mesmo que me visse assim?
canela fina
taquara vergada
sorriso pilantra
os olhos mansos de quem vê por cima
caminho sem estrada
porta sem tranca

ah, mano velho
disseram que amar e ser feliz é questão de escolha
começa na gente
vagueia, vagueia, vagueia e 
termina na gente
sabe aquela sua pior parte? a menos querida, a tão escondida
acolha

e sejamos nós o primeiro e último motivo de graça dos dias
o indecoroso genuíno
a melhor piada
nossa postura inadequada
desde menino
o que de nós a gente de cara entrega
graça que rega
porque não é sério
não, nunca foi
sequer houve a pretensão

é o que resta
grão de areia que amontoa
a sobra tola
que não coube 
e ficou de fora da operação
a terceira casa depois da vírgula
a dízima preguiçosa
mas muito preguiçosamente periódica
a se repetir miúda
que é miúdo que a gente pensa
é miúdo que a gente sente
e é miúdo que a gente acaba por ser

canela fina
de tanto andar
de tanto amor de andar
que chegar ta mais pra consequência que pra vontade
dá nisso
rir de si antes de mais nada
e depois de tudo é besteira
e besteira também é serviço
a si, a nós, ao mundo
sorria, malandro! 
não espere haver condição

e se pintar a tristeza 
se for ruim de descer 
se for ruim de engolir
a gente frita ela na manteiga
salpica pimenta e depois pinga um limão

a gente que
de tanto andar inadequado
teima na pilantragem do amor
porque escolheu ser feliz
ainda que preguiçosa e periodicamente
repetidas vezes
no ritmo genuíno
na cadência miúda
que cadenciado fica tudo mais bonito
tudo mais gostoso
inclusive a tristeza
que a gente de cara entrega
graça que rega
que começa na gente
vagueia, vagueia, vagueia e
termina na gente

o pulso baixo
e as costelas
rá!
ai delas


segunda-feira

abarca

céu chumbo na baía de guanabara
barco carregando coisa
barca carregando gente
navio
assovio
do vento, o barulho do motor que
parece até o barulho do mar
que é o motor do mar?
quem matou o motor?
o motor morreu
viu? ouviu?
só o barulho do mar
o assovio do vento
a gente encarregada na barca carregada de gente
e o céu chumbo na baía de guanabara
e a noite caindo
escurecendo o mar sem motor
onde boia a barca de gente e o motor morto da barca
muita luz no centro da baía
viu?
uma plataforma
que parece até uma árvore de natal
não igual a da lagoa
que também é cor de chumbo
árvore da baía
plataforma
ilha de metal cor de chumbo
que carrega gente e motores
todos vivos
quantos motores cabem numa plataforma?
quantas pessoas? do que se encarregam?
na barca cabem mil e trezentas
quatrocentas de pé e novecentas sentadas
diz o informe
menos nas escadas
que não pode
diz o informe
mas todo mundo senta
a gente não aguenta, viu?
ainda bem que existem as plataformas
cheias de luz numa noite chumbada sem motor
só mar
o facebook é uma plataforma
que carrega mais gente que os barcos, navios, plataformas e barcas juntos
mais gente do que caberia na baía de guanabara
ouviu? o motor, ouviu? não
foi a plataforma
o facebook? não
a árvore de natal, a ilha
do facebook? não
a de metal, carregada de gente e de motor
ouviu?
a plataforma? não
o facebook, mensagem
kd vc?
ouviu?
o avião decolou na noite feita na baía de guanabara
o avião carregado de gente encarregada
carregado de facebook, viu?
kd vc?
o motor! o motor, ouviu?
a gente comemorou
a gente não aguenta, viu?
a barca andou
mesmo com a gente sentada na escada
o barulho do motor
o barulho do mar
a plataforma que brilha no meio da noite feita
o assovio do vento
viu? kd vc?
o motor da gente, a gente feita
a plataforma da noite
quantos navios cabem num facebook?
o que abarcam? quantas baías na plataforma? quantos aviões? quanto chumbo?
quantas guanabaras cabem na gente?
kd vc?
o motor descansa
mareja
a barca aporta
a gente desce
a gente não aguenta, viu?

quinta-feira

Choveu

aconteceu quando deixou de representar e
passou a reconhecer
quando em vez da diferença
a semelhança

quando viu que repartir não era ir-se reiteradamente
assim como remissão não implica retrabalho, tarefa
mas alívio
que não se conquista,
goza-se
e que sonho e objetivo, quando ditos com o mesmo propósito
traem-se
porque não dizem o mesmo

foi quando disse irmão pela primeira vez sem que o sugerissem
e se sentiu maior
a soma dos apenas
conjunto dos sós
assomou-se-lhe um conforto
uma paixão

aconteceu quando, ao se recriar,
recreou-se
e descobriu
que um bilhete de guardanapo vale mais que três vias rubricadas
e deixou a convicção para os que dela se valem

viu a noite chegar resfriando o dia por cima
e o dia voltar aquecendo a noite por debaixo
tomou conta
de um e de outro
e notou que tomar conta tem mais de dar que de tomar

viu a nuvem
ouviu a nuvem
bebeu da nuvem
virou nuvem, deu conta
de si, aconteceu
nublou-se
choveu.

segunda-feira

patifaria

Todo poema é uma assertiva contra a mesquinhez
é dispor-se
porque a poesia...
a poesia será o que tiver de ser no peito da gente, como sempre foi
na mente, por sobre os ombros
nas palmas das mãos e nas solas duras dos pés, no umbigo
no ventre, por favor,
por favor um café quente
grosso de cortar com faca
puxe uma cadeira, assente-se
e conte uma mentira que seja, mas das boas
dessas que a gente vira e mexe se apega, se apaixona
não só por conveniência
que paixão e conveniência dificilmente se dão

um brinde, irmão,
uma ode à patifaria da vida
que se espraia
cozida nas mentes, servida nos corpos
que amam, correm, dançam, abraçam, caem,
e morrem
não necessariamente nessa ordem, mas
geralmente sem ser necessário, sem precisão
como o poema

que pode ser uma sacola de laranja
que rasga no meio da rua com o sinal prestes a abrir
ou no ônibus cheio quando chega a curva,
a roupa do rei nu,
ou a crise de soluços na conclusão da defesa
pausa, tropeço,
pedra no caminho, na contramão,
atrapalhando o tráfego
atrapalhando o fluxo
fôlego pra terminar a frase longa e sem pontos ou vírgulas
como as que me vem
quando você passa
ou quando o árbitro marca contra o meu time
patifarias, meu filho
tudo patifaria!
coisa besta, sem valia
de um nada por propósito, vazia
mas que mexe, vira,
vira e mexe na gente, alma vadia
dizia o mestre
"o mundo não dá a ninguém inocência
nem garantia"


de caber

O meu poema é um lugar
onde me recosto
cabe a mim e a mim cabe
Eu me caibo no meu poema
geralmente

O meu poema é lugar
onde tu te recostas
cabe também a ti e a ti também cabe
Tu cabes no meu poema
geralmente teu

O poema é o nosso lugar
recostamo-nos e nos cabemos
cabe a nós
geralmente