Quinta-feira

Só não vale dançar homem com homem e nem mulher com mulher


"Na realidade, a conclusão que tiramos é que nunca é fácil o enfrentamento com as elites, seja no Maranhão ou no resto do país. A gente tem clareza quanto a isso. Nós vamos continuar lutando através dos nossos advogados. Vamos tomar todas as medidas que a legislação nos permite. Por outro lado, não vamos nos furtar às nossas responsabilidades e faremos tudo aquilo que estiver em nosso alcance para que o Brasil conheça a realidade que esse caciquismo de 40 anos impõe ao nosso Estado. Seguramente, boa parte das lideranças, da população e das organizações vai continuar na expectativa de êxito das ações dos nossos advogados. Vamos ficar atentos."
Jackson Lago, governador do Maranhão


Eu não queria falar dele! Eu juro que não queria! Eu juro pela minha tia-avó morta atrás da porta com uma caneta de sete cores atravessada no esfíncter que resisti até onde agüentava. Mas não dá. Ele me atenta, me provoca, me tira do sério! Quando todos pensavam que ele estava a sete palmos das urnas eleitorais, depois que finalmente o feudo, digo, Estado do Maranhão conseguiu mudar o sobrenome de seu governador, eis que, como uma Fênix Birigüiense, ele ressurge das cinzas, ou melhor, do Amapá. José Sarney é eleito senador pelos nortistas e, ao estilo punk-folk do Matanza, chega com “Pé na porta e soco na cara” tomando Brasília de assalto (literalmente). Não satisfeito, nosso querido ex-presidente da República é eleito por seus comparsas, digo, colegas para o cargo de Presidente do Senado.

Como vivemos num país onde quase 70% (estou sendo bonzinho) das pessoas que se interessam por política se interessam, antes, pelo bônus financeiro que ela pode proporcionar, e onde boa parcela da população não tem acesso ou mesmo tem preguiça de buscar informação, aí vão alguns esclarecimentos: Nosso querido representante do Amapá (adoro piadas prontas) agora será responsável pelo gerenciamento de 2,7 bilhões de reais, além de ter direito a outros benefícios como direito a carro, residência oficial e a contratação de até 38 cargos comissionados. Além disso, tem a atribuição de controlar a pauta de votação da Casa, decidir o que será votado pelo plenário, orientar as discussões e, ainda, resgatar projetos que estiverem parados em comissões. Pode também influir na instalação de Comissões Parlamentares de Inquérito (CPI) e na impugnação de proposições, além de comandar as sessões conjuntas das duas Casas (Senado e Câmara dos Deputados), pondo em votação medidas provisórias e vetos presidenciais. Funções muito convenientes para quem tem um filho (Fernando Sarney) investigado pela Polícia Federal e com prisão decretada pelo Ministério Público Federal por, entre outros crimes, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha e fraude em licitação.

Passada esta longa introdução sobre o atual posto do Don Corleone dos trópicos, atentemos às notícias da semana. Terça-feira, 1:30h, o Tribunal Superior Eleitoral decide pela cassação de Jackson Lago (PDT), então governador do Maranhão, sob as acusações de abuso do poder político e compra de votos nas eleições de 2006. Mas quem diabos é Jackson Lago? Bem, pra ser sincero pouca gente sabe muito sobre o tal garoto abusado, de 74 anos, que conseguiu a façanha de “livrar” o Maranhão de 40 anos de família Sarney. O médico e ex-prefeito da capital São Luís, apoiado por movimentos populares, derrotou a senadora, ex-governadora e ex-objeto de escândalo eleitoral (vide eleições presidenciais de 2002) Roseana Sarney e assumiu o posto de governador maranhense. Acontece que, como alegria de pobre dura pouco (dá-lhe clichê!), mal largou a teta do Governo, a quadrilha Sarney subiu nas tamancas e foi chorar nas barras da saia do TSE.

Como na terra de Cabral desgraça pouca é besteira, o clã Sarney, coincidentemente dono de uma transmissora da Rede Globo, que representa nada mais nada menos que o maior empreendimento midiático do território maranhense, cumpriu a lição de casa, fez uma cosquinha no Judiciário, e mais uma vez detém as rédeas da política dentro de seu grande latifúndio apelidado por alguns de Estado. E engana-se você que pensa que arrancaram o velhinho do cargo e pronto. Quando um governador (e seu vice) tem o mandato cassado, restam duas opções: a primeira consiste na realização de uma nova eleição para que a população escolha o seu representante, e a segunda, na substituição automática pelo segundo mais votado no último pleito, que, por pura e transparente sorte do destino, nos conduz diretamente à figura de Roseana Sarney. Após votar pela cassação, os ministros do TSE deveriam optar, então, por alguma das duas alternativas. Te dou três segundos para pensar e um urso de pelúcia rosa que diz “mamãe estou com fome” se adivinhar qual foi a decisão dos senhores ministros.

Mas nem tudo está perdido! Afinal, toda decisão do TSE pode ser revista pelo Supremo Tribunal Federal (caberia algum sonzinho celeste como o da abertura dos Simpsons nesse momento) caso alguma das partes motive. Só que espera um minuto... quem é mesmo o presidente do STF? Ah, o Gilmar Mendes. Puta que pariu! É incrível como tudo nesse blog gira, anda, dá um rolé, joga uma peladinha, toma uma cerva e termina no Gilmar Mendes. Só pode ser carma! Como sempre, rápido no gatilho, (Daniel Dantas e o Oportunitty que o digam), Gilmarzinho, um dos maiores embaixadores da direita no Judiciário que esse país já presenciou, adiantou que em casos como este o STF costuma acatar as decisões do TSE. Uma posição moderada, imparcial e pouco conveniente, diga-se de passagem.

Bem, a novela segue. Mais uma vez cacique Sarney e sua tribo gravam seus nomes nas placas do governo do Maranhão.

Sábado

Jarbas, a colônia e Mannhein




Brasília é um show! Recheada de grandes performances, a Broadway Tupiniquim “presenteia” a população todos os anos com verdadeiros espetáculos. Sem voltar muitas páginas no calendário, considerando apenas o governo petista, podemos destacar a notável comédia do Mensalão dirigida magistralmente pelo presidente nacional do PTB, Roberto Jefferson, de 2005 para 2006. Aliás, um roteiro desses em Hollywood seria, sem dúvidas, digno das ilustres interpretações dos talentosíssimos e privilegiados intelectualmente Ben Stiller e Adam Sandler. Sem forçar muito a memória, também temos o ballet leve e descomprometido da deputada federal petista Ângela Guadagnin em plena seção da Assembléia Legislativa. Nem mesmo um ser gerado numa rapidinha entre Mr. Catra e Deborah Colker seria capaz de tal atitude vanguardista. Sem mais delongas, deixando de lado um ou outro senador, alguns muitos tucanos, demos e demais legendas, chegamos a 2009. E porra, convenhamos, quem seria a grande estrela escolhida pra inaugurar com brilhantismo a casa de espetáculos mais badalada do país e maior contribuinte para a mídia de direita? Não precisa pensar muito. Exatamente! A putinha mais alegre e saltitante do Brasil, aquela que dá de mamar aos filhotes Sarney, Garotinho, Calheiros e por aí vai... o PMDB. E o nome da vez é (rufem os tambores) Jarbas Vasconcelos. Um dos maiores vendedores de revistas e jornais de todos os tempos da última semana, perdendo apenas para o Flamengo que foi pegar o sabonete no chão e levou uma “lavada” do Resende na disputa das semifinais da Taça Guanabara. Para você que só assiste o Jornal Hoje, ou lê Nova, ou Marie Claire, ou mesmo pra você punheteiro que cansou de gastar com a sofisticada Playboy e apelou para a bagaceira Gata da Hora (de apenas R$4,90) lá vai uma análise-liguei-o-foda-se-resumida do episódio:

Jarbas sempre foi um sujeitinho em cima do muro. Comprou uma briguinha com o partido quando votou pela cassação do menino Calheiros. Fez pose de bom moço para o eleitorado, mas repudia a hipótese de sair do PMDB, que ele mesmo descreve como um partido corrupto “sem bandeiras, sem propostas, sem um norte”, para não perder o mandato devido a lei de fidelidade partidária. Em fevereiro, cheio de boas intenções e angustiado por ser o único a suportar o peso da dignidade e boa fé dentro do partido, Jarbas não aguentou mais reter as lágrimas para si, procurou a redação do veículo de melhor análise e interferência política da imprensa brasileira e chorou suas mágoas. Falou que não confia nos seus coleguinhas de Congresso, que não apóia a candidatura da super-popular e carismática Dilma Roussef (PT), que quer garantir o leitinho da família se ajoelhando e abrindo o zíper do Serra (PSDB), que político é tudo safado, que está cansado de lutar em vão, que o Lula é bobo-feio-e-chato, e tudo mais que soa como melodias harmoniosas para os ouvidos dos excelentíssimos assinantes da Veja.

E aí, garotão, chega a hora derradeira em que esboçamos um sorrisinho de sabichão com segundo grau completo, cruzamos a perna e vomitamos: “Vivemos na democracia. O povo que colocou essa gente no poder. Eles não são nada mais que o reflexo do povo.” Não quero bancar o comunista radical chato defensor dos fracos e oprimidos, mas nessas horas sinto uma sensação como se tivesse uma pulga no ânus (ta, eu nunca experimentei essa sensação, mas imagino como deve ser) e pulo da cadeira com uma questão: reflexo de que povo, cara pálida?

De jaqueta camuflada, bandana e camiseta vermelha recorro ao Alcorão (Manifesto) Comunista quando Maomé, digo, Marx (é, o Engels também assina) observa que o Estado de uma sociedade capitalista atua, basicamente, como o comitê onde são discutidos os interesses e negócios da burguesia. Entenda-se burguesia como conglomerados comerciais e grandes empresas de interesse privado, e não simplesmente aquele seu vizinho que montou uma confecção de calcinhas no quintal de casa e já emprega nove costureiras do bairro (embora ele também possa se encaixar no papel de pequeno-burguês). Enfim, foda-se o seu vizinho por ora.

Acontece que, no Brasil, a maior parte da população ainda sofre de um mal alcunhado por Paulo Freire como “inexperiência política”. Então você me pergunta: “Ora porra! Mas a gente acabou com a ditadura, a gente já fez uma penca de constituições, temos um dos sistemas eleitorais mais avançados do planeta. Inexperiência política tem a sua mãe”. Tudo bem querido, pensemos de maneira um pouco mais devagar. Se introduzir de leve a coisa fica mais fácil. Quando eu estalar os dedos e contar até três você vai estar com cinco anos, nos seus tempos de colégio, na hora do recreio, depois da aula da Tia Rosemere. Imagine que um grupo de coleguinhas chega com um tabuleiro enorme, com figuras fosforescentes, três dados sendo um de seis, outro de oito e outro de doze lados, um livro de senhas com 576 páginas e te convidam para brincar. “puta merda! Eu não sei direito o que é, mas eu sempre sonhei jogar isso!”. O problema, é que seus coleguinhas são os donos do jogo e brincam com ele desde que aprenderam a falar e você, por outro lado, só sabe que as cores são bonitas e gosta de arriscar nos dados. Se fode aí irmãozinho. Vai tomar um sacode dos teus coleguinhas durante o mês inteiro e apesar de não gostar de perder, não vai desgrudar, afinal, o jogo é a sensação do colégio e você não pode deixar de participar. Fim do transe. Agora quando eu estalar os dedos você vai acordar no Brasil colonial. Toda terra que você ousa pisar pertence a algum senhor que, muito provavelmente, a recebeu a baixíssimo custo da Coroa na divisão de Sesmarias, ou mesmo de outros donos de grandes territórios que, por algum motivo ou preguiça mesmo, não puderam cultivar este pedaço de chão. Você olha pro lado e assiste ao massacre de tribos indígenas, milhares de negros escravos vivendo apenas de Pau, Pão e Pano, e as únicas pessoas minimamente (mas minimamente mesmo) ilustradas são imigrantes europeus desejosos de garantir uma pequena fortuna e voltar para seus países de origem. Os rumos da sociedade brasileira são definidos por latifundiários estrangeiros em sua maioria. Não existe reconhecimento por parte do povo como sociedade brasileira, afinal, o homem do povo não tem terra, portanto não vota e não pode ser votado.

Para não te obrigar a ler muitas linhas (eu sei que você detesta), vamos correr um pouco. Passa a abolição, chega 1850 e a Lei de Terras, vai uma porrada de negro, pobre e tudo quanto é coisa ruim ocupar os morros e as zonas periféricas dos centros urbanos, chega a república, as revoltas regionais, a Primeira Guerra, Vargas e etc... Quando a galerinha de Birigui começa então a sacar qual é a da brincadeira, bolar umas jogadinhas malandras que podem dar certo, quem sabe um Jango à frente do Estado aqui, um Luiz Carlos Prestes pela ponta esquerda... Pronto! Fecha tudo. Acabou a palhaçada! Agora é ditadura porque o povo não sabe pensar por si mesmo. Os militares é que tem a razão. A porrada come, um ou outro se exila, surgem boas canções, AI-5... até que chega 1979! Eba! Anistia! Viva o poder do povo! Uhul! É isso aí porra, quero ver quem vai ser macho agora de dizer que a gente não tem consciência política. Traz os caras de volta do exílio, até porque não há ninguém melhor pra representar a população do Brasil do que os caras que fugiram para França. Tá achando o quê? Os caras falam diversos idiomas e têm boa educação. Eles é que devem ser os sujeitos da reconstrução democrática do país, o povo é povo, é objeto.

Há algum bom tempo, Karl Mannhein, discutiu sobre a sociedade rachada em que vivia na época e permanece até hoje. Começou a circular, então, pelas rodinhas alemãs e pelo mundo todo até chegar à ex-Ilha de Santa Cruz o conceito de “democratização fundamental”. Esse fenômeno implica, basicamente, em uma crescente participação do povo no seu processo histórico. No caso, o povo como sujeito, e não objeto. Infelizmente nossa cultura histórica não nos é favorável. Não é de hoje que a sociedade brasileira recebe e aceita a submissão no leite materno. Já nascemos com a mentalidade de que bons são os outros, os ricos, mesmo dentro de nosso próprio país. Um Garotinho e até mesmo um Lula não me representam. Suas políticas paternalistas de bolsa-isso, bolsa-aquilo, restaurante, hotel, bordel popular e etc não garantem o desenvolvimento democrático do povo, apenas o mantém na condição de objeto, que permanecerá inerte em sua posição, recebendo as ações do Governo. Pobre bem alimentado e com casinha nos dias de chuva não late, não rosna e não precisa pensar. Além da mídia espetacular e massificadora e da oposição ao Governo do PT, ninguém precisa de um Jarbas Vasconcelos oportunista pra chegar à conclusão que o Congresso é um grande puteiro. Para evoluir politicamente, a população precisa construir seu próprio conceito de democracia a partir da cultura, educação e direitos básicos, e não por declarações bombásticas sem nenhum objetivo popular além de causar alarde.

Já acabou Jarbas? Então passa a bola porque, como já cantava o Fundo de Quintal, "o show tem que continuar".

Segunda-feira

Não falta mais nada na capital




Senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) em entrevista ao jornalista Otávio Cabral (VEJA)

O PMDB é corrupto

O que representa para a política brasileira a eleição de José Sarney para a presidência do Senado?
É um completo retrocesso. A eleição de Sarney foi um processo tortuoso e constrangedor. Havia um candidato, Tião Viana, que, embora petista, estava comprometido em recuperar a imagem do Senado. De repente, Sarney apareceu como candidato, sem nenhum compromisso ético, sem nenhuma preocupação com o Senado, e se elegeu. A moralização e a renovação são incompatíveis com a figura do senador.
Mas ele foi eleito pela maioria dos senadores.
Claro, e isso reflete o que pensa a maioria dos colegas de Parlamento. Para mim, não tem nenhum valor se Sarney vai melhorar a gráfica, se vai melhorar os gabinetes, se vai dar aumento aos funcionários. O que importa é que ele não vai mudar a estrutura política nem contribuir para reconstruir uma imagem positiva da Casa. Sarney vai transformar o Senado em um grande Maranhão.

Como o senhor avalia sua atuação no Senado?
Às vezes eu me pergunto o que vim fazer aqui. Cheguei em 2007 pensando em dar uma contribuição modesta, mas positiva – e imediatamente me frustrei. Logo no início do mandato, já estourou o escândalo do Renan (Calheiros, ex-presidente do Congresso que usou um lobista para pagar pensão a uma filha). Eu me coloquei na linha de frente pelo seu afastamento porque não concordava com a maneira como ele utilizava o cargo de presidente para se defender das acusações. Desde então, não posso fazer nada, porque sou um dissidente no meu partido. O nível dos debates aqui é inversamente proporcional à preocupação com benesses. É frustrante.
O senador Renan Calheiros acaba de assumir a liderança do PMDB...
Ele não tem nenhuma condição moral ou política para ser senador, quanto mais para liderar qualquer partido. Renan é o maior beneficiário desse quadro político de mediocridade em que os escândalos não incomodam mais e acabam se incorporando à paisagem.

O senhor é um dos fundadores do PMDB. Em que o atual partido se parece com aquele criado na oposição ao regime militar?
Em nada. Eu entrei no MDB para combater a ditadura, o partido era o conduto de todo o inconformismo nacional. Quando surgiu o pluripartidarismo, o MDB foi perdendo sua grandeza. Hoje, o PMDB é um partido sem bandeiras, sem propostas, sem um norte. É uma confederação de líderes regionais, cada um com seu interesse, sendo que mais de 90% deles praticam o clientelismo, de olho principalmente nos cargos.

Para que o PMDB quer cargos?
Para fazer negócios, ganhar comissões. Alguns ainda buscam o prestígio político. Mas a maioria dos peemedebistas se especializou nessas coisas pelas quais os governos são denunciados: manipulação de licitações, contratações dirigidas, corrupção em geral. A corrupção está impregnada em todos os partidos. Boa parte do PMDB quer mesmo é corrupção.
Quando o partido se transformou nessa máquina clientelista?
De 1994 para cá, o partido resolveu adotar a estratégia pragmática de usufruir dos governos sem vencer eleição. Daqui a dois anos o PMDB será ocupante do Palácio do Planalto, com José Serra ou com Dilma Rousseff. Não terá aquele gabinete presidencial pomposo no 3º andar, mas terá vários gabinetes ao lado.

Por que o senhor continua no PMDB?
Se eu sair daqui irei para onde? É melhor ficar como dissidente, lutando por uma reforma política para fazer um partido novo, ao lado das poucas pessoas sérias que ainda existem hoje na política.
Lula ajudou a fortalecer o PMDB. É de esperar uma retribuição do partido, apoiando a candidatura de Dilma?
Não há condições para isso. O PMDB vai se dividir. A parte majoritária ficará com o governo, já que está mamando e não é possível agora uma traição total. E uma parte minoritária, mas significativa, irá para a candidatura de Serra. O partido se tornará livre para ser governo ao lado do candidato vencedor.

O senhor sempre foi elogiado por Lula. Foi o primeiro político a visitá-lo quando deixou a prisão, chegou a ser cotado para vice em sua chapa. O que o levou a se tornar um dos maiores opositores a seu governo no Congresso?
Quando Lula foi eleito em 2002, eu vim a Brasília para defender que o PMDB apoiasse o governo, mas sem cargos nem benesses. Era essencial o apoio a Lula, pois ele havia se comprometido com a sociedade a promover reformas e governar com ética. Com o desenrolar do primeiro mandato, diante dos sucessivos escândalos, percebi que Lula não tinha nenhum compromisso com reformas ou com ética. Também não fez reforma tributária, não completou a reforma da Previdência nem a reforma trabalhista. Então eu acho que já foram seis anos perdidos. O mundo passou por uma fase áurea, de bonança, de desenvolvimento, e Lula não conseguiu tirar proveito disso.
A favor do governo Lula há o fato de o país ter voltado a crescer e os indicadores sociais terem melhorado.
O grande mérito de Lula foi não ter mexido na economia. Mas foi só. O país não tem infraestrutura, as estradas são ruins, os aeroportos acanhados, os portos estão estrangulados, o setor elétrico vem se arrastando. A política externa do governo é outra piada de mau gosto. Um governo que deixou a ética de lado, que não fez as reformas nem fez nada pela infraestrutura agora tem como bandeira o PAC, que é um amontoado de projetos velhos reunidos em um pacote eleitoreiro. É um governo medíocre. E o mais grave é que essa mediocridade contamina vários setores do país. Não é à toa que o Senado e a Câmara estão piores. Lula não é o único responsável, mas é óbvio que a mediocridade do governo dele leva a isso.

Mas esse presidente que o senhor aponta como medíocre é recordista de popularidade. Em seu estado, Pernambuco, o presidente beira os 100% de aprovação.
O marketing e o assistencialismo de Lula conseguem mexer com o país inteiro. Imagine isso no Nordeste, que é a região mais pobre. Imagine em Pernambuco, que é a terra dele. Ele fez essa opção clara pelo assistencialismo para milhões de famílias, o que é uma chave para a popularidade em um país pobre. O Bolsa Família é o maior programa oficial de compra de votos do mundo.

O senhor não acha que o Bolsa Família tem virtudes?
Há um benefício imediato e uma consequência futura nefasta, pois o programa não tem compromisso com a educação, com a qualificação, com a formação de quadros para o trabalho. Em algumas regiões de Pernambuco, como a Zona da Mata e o agreste, já há uma grande carência de mão-de-obra. Famílias com dois ou três beneficiados pelo programa deixam o trabalho de lado, preferem viver de assistencialismo. Há um restaurante que eu frequento há mais de trinta anos no bairro de Brasília Teimosa, no Recife. Na semana passada cheguei lá e não encontrei o garçom que sempre me atendeu. Perguntei ao gerente e descobri que ele conseguiu uma bolsa para ele e outra para o filho e desistiu de trabalhar. Esse é um retrato do Bolsa Família. A situação imediata do nordestino melhorou, mas a miséria social permanece.

A oposição está acuada pela popularidade de Lula?
Eu fui oposição ao governo militar como deputado e me lembro de que o general Médici também era endeusado no Nordeste. Se Lula criou o Bolsa Família, naquela época havia o Funrural, que tinha o mesmo efeito. Mas ninguém desistiu de combater a ditadura por isso. A popularidade de Lula não deveria ser motivo para a extinção da oposição. Temos aqui trinta senadores contrários ao governo. Sempre defendi que cada um de nós fiscalizasse um setor importante do governo. Olhasse com lupa o Banco do Brasil, o PAC, a Petrobras, as licitações, o Bolsa Família, as pajelanças e bondades do governo. Mas ninguém faz nada. Na única vez em que nos organizamos, derrotamos a CPMF. Não é uma batalha perdida, mas a oposição precisa ser mais efetiva. Há um diagnóstico claro de que o governo é medíocre e está comprometendo nosso futuro. A oposição tem de mostrar isso à população.

Para o senhor, o governo é medíocre e a oposição é medíocre. Então há uma mediocrização geral de toda a classe política?

Isso mesmo. A classe política hoje é totalmente medíocre. E não é só em Brasília. Prefeitos, vereadores, deputados estaduais também fazem o mais fácil, apelam para o clientelismo. Na política brasileira de hoje, em vez de se construir uma estrada, apela-se para o atalho. É mais fácil.

Por que há essa banalização dos escândalos?
O escândalo chocava até cinco ou seis anos atrás. A corrupção sempre existiu, ninguém pode dizer que foi inventada por Lula ou pelo PT. Mas é fato que o comportamento do governo Lula contribui para essa banalização. Ele só afasta as pessoas depois de condenadas, todo mundo é inocente até prova em contrário. Está aí o Obama dando o exemplo do que deve ser feito. Aqui, esperava-se que um operário ajudasse a mudar a política, com seu partido que era o guardião da ética. O PT denunciava todos os desvios, prometia ser diferente ao chegar ao poder. Quando deixou cair a máscara, abriu a porta para a corrupção. O pensamento típico do servidor desonesto é: "Se o PT, que é o PT, mete a mão, por que eu não vou roubar?". Sofri isso na pele quando governava Pernambuco.

É possível mudar essa situação?
É possível, mas será um processo longo, não é para esta geração. Não é só mudar nomes, é mudar práticas. A corrupção é um câncer que se impregnou no corpo da política e precisa ser extirpado. Não dá para extirpar tudo de uma vez, mas é preciso começar a encarar o problema.

Como o senhor avalia a candidatura da ministra Dilma Rousseff?
A eleição municipal mostrou que a transferência de votos não é automática. Mesmo assim, é um erro a oposição subestimar a força de Lula e a capacidade de Dilma como candidata. Ela é prepotente e autoritária, mas está se moldando. Eu não subestimo o poder de um marqueteiro, da máquina do governo, da política assistencialista, da linguagem de palanque. Tudo isso estará a favor de Dilma.

O senhor parece estar completamente desiludido com a política.
Não tenho mais nenhuma vontade de disputar cargos. Acredito muito em Serra e me empenharei em sua candidatura à Presidência. Se ele ganhar, vou me dedicar a reformas essenciais, principalmente a política, que é a mãe de todas as reformas. Mas não tenho mais projeto político pessoal. Já fui prefeito duas vezes, já fui governador duas vezes, não quero mais. Sei que vou ser muito pressionado a disputar o governo em 2010, mas não vou ceder. Seria uma incoerência voltar ao governo e me submeter a tudo isso que critico.

Transcrito da VEJA de 18/2/2009 - edição 2100

Quinta-feira

Iscurregô, abaixa e créu!



Vovó nunca gostou que eu andasse pelas ruas de madrugada: “Meu filho, só bandido e puta ficam na rua depois de meia noite”, afirmava ela da altura de seus sessenta e poucos anos de sagacidade. Como todo bom moleque-perdido-sem-futuro-na-vida, nunca levei a sério a cartilha da velhinha, mas também nunca imaginei que, em sua incontestável sabedoria, a mulher de cabelos brancos que me viciou em bolo de fubá tratava, em seu discurso, dos nossos aclamados homens da lei, representantes eleitos democraticamente pela nação brasileira (palmas nessa hora) que circulam pelo bordel respeitosamente apelidado de Brasília.

Assim como churrasco e cerveja, futebol e flamengo, Rio de Janeiro e Ipanema, Vinícius e Tom, Bob e cannabis, Batman e Robin, Xuxa e Sérgio Malandro, foda e madrugada são dois vocábulos indissociáveis. Mas, (pasmem senhores!) ao contrário do que você imaginava, não só as zonas portuárias e as vielas escuras de nossas cidades estão repletas de perigos e bundinhas empinadas! Cientistas do Instituto de Análise Ébrio-Política revelaram ao mundo que no Congresso Nacional, todas as lâmpadas são vermelhas e todos os congressistas são filhos de uma mesma mãe. Esta de muito valor e reconhecimento entre os trabalhadores mal amados do Centro de nossas capitais, principalmente nos horários de almoço e ao fim do expediente. Prova disso, caros camaradas, foi a tentativa de manobra digna de kama sutra executada na madrugada desta quinta-feira, quando, em reunião extraordinária (de madrugada, no Senado? Nunca li uma definição tão perfeita para extraordinária), uma récua de senadores (ta vendo, pra você que acha que político não trabalha em fim de ano) aprovou uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC – uma daquelas siglas que só de ouvir já dão uma pontada na rabiola do cidadão) que acrescentaria 7.343 cadeiras acolchoadas nas Câmaras de Vereadores em todo o país, ou seja, mais dinheiro seu, honrado contribuinte, direcionado diretamente para bolsos de linho.

Já fazia um bom tempo (talvez uma semana inteira) que o nossos representantes não nos bulinavam, então eles optaram por uma rapidinha. Em apenas uma madrugada cumpriram a exigência de dar oito sessões sem tirar de dentro, e gozaram em dois turnos. O movimento de vai-e-vem foi comandado pelo Picão-mor e presidente do Senado, Garibaldi Alves (PMDB-RN), que “abria e encerrava as sessões uma atrás da outra”, como a repórter descreve detalhadamente no site do jornal OGLOBO. Portanto, entenda caro contribuinte, a orgia aprovada pelo vouyer, digo, relator César Borges (PR-PA) traria de volta todos aqueles nobres senhores que não conseguiram o seu lugar ao sol durante as eleições municipais e ainda não alcançaram as tetas de nossa mimosa, gentilmente chamada de Governo.

Como nem a mais calejada das meretrizes agüentaria uma suruba tão vigorosa e desleal como essa, ainda na quinta-feira, mas em horário comercial (sem comentários), a Mesa Diretora da Câmara Federal passou pomadinha e decidiu não promulgar a tal PEC. O presidente da Câmara dos Deputados, Arlindo Chinaglia (PT-SP) devolveu a resolução ao Senado para que seja reformulada e, quem sabe, outro dia, com mais carinho e um pouquinho de manteiga passe pelo Congresso. E é aí, meu patrão, que começa a viadagem (pura força de expressão, sem ofensas aos queridos homossexuais) jornalística. É um tal de "Chinaglia alfinetou o Senado" pra cá, "o clima esquenta no congresso" pra lá, que o leitor dos chamados "grandes jornais" é obrigado a assistir tudo como se fosse uma briguinha familiar por causa do paperview da bundesliga que o marido comprou ou pela bomba atômica que atingiu a conta da família depois que a esposa foi ao shopping com o cartão de crédito. Como diria um grande amigo meu: "Alfinetou" de cú é rola! Se me disserem que o clima esquentou entre as lideranças do Congresso o máximo que eu posso imaginar é que Garibaldi comprou uma cueca de oncinha, ou que Arlindão começou a usar aquelas divertidas bolinhas sexuais que explodem quando... ah, deixa pra lá!

Não é novidade pra ninguém a promiscuidade PT-PMDB, ainda mais quando se trata das relações entre Câmara e Senado. E o melhor de tudo é que se, realmente, os presidentes do Congresso ficarem nesse 0a0, a decisão sobra pro STF. Sim, o STF aquele tribunal mesmo! Isso, aquele presidido pelo sacrossanto Gilmar Mendes. O nosso adorado ministro com rabo preso (sinta-se à vontade para qualquer tipo de interpretação) que deu uma rebolada, fez beicinho, abriu as pernas e concedeu um habeas-corpus para o coitadinho-injustiçado do Daniel Dantas.

Malandro, daqui pra frente, só nos resta tentar segurar as calças com toda força, porque, pelo visto, a trolha é grossa e vem que vem rasgando. Vovó que era esperta e ninguém sabia.

Terça-feira

Além de tudo, ela pensa


“Porra! Mulher maluca mermão! Me chamou de desdé...derré...decrépilto... decrépito, sei lá... disse que nosso futuro era lúdico, que eu não tinha lucidez e capacidade cogui... coni... cogini...cognitiva que ela esperava de um parceiro. E ainda saiu puta da vida quando eu perguntei o que ela tava querendo dizer com aquilo tudo.”


É caro amigo, feliz foi Piteco (salve Maurício de Souza) que ganhava mulher na porrada e puxão de cabelo. Desde que mamãe trocou as duas colheres de farinha de trigo pela Evolução das Espécies ou mesmo por um MBA em gestão empresarial, nós, porcos peludos entregues aos sofás e cerveja nas noites de quarta-feira, fomos obrigados a rever nossos conceitos acerca desse mundo que nos assola (mesmo sem o menor sentido, “mundo que nos assola” sempre concede um caráter apocalíptico, não é?). Bem, ao contrário de alguns que enfiaram uma etiqueta de “loser” no rabo e buscam se autoafirmar em anilhas e halteres, eu confesso que gosto dessa mudança. Até pelo meu “quê” masoquista, admito cair ao chão, beijar os pés, rastejar suplicante e rendido aos devaneios de uma mulher que saiba formular pensamentos que não sejam chupados de editoriais da Capricho (para as queridas ninfetinhas) ou da Nova (adoráveis balzaquianas). Marx, Nietzche, Debord, Horkheimer, McLuhan, Kant, Voltaire, Gramsci e até mesmo boçais como Freud e Comte ficam muito mais agradáveis quando citados pelos doces lábios femininos.

Assusta! É óbvio que assusta! Até mesmo o experiente Oscar Niemeyer, ladeira abaixo no seu século de vida, se sentiria balançado diante do atrevimento intelectual de saias. Raduan Nassar, um dos meus idolatrados companheiros de cabeceira, foi um dos que reconheceu o bambear de pernas diante da sapiência sobre salto agulha e compôs o brilhante “Um copo de Cólera”, que mais a frente viria a ser filme (não tão brilhante assim) com Júlia Lemmertz e Alexandre Borges encarnando o desafio sexual de neurônios. Não há bigode que não se estremeça diante de um contraponto pintado de batom ou de um artigo escrito e assinado por mãos de unhas bem feitas. Quer ver neguinho se borrar bainhas abaixo, joga o sujeito numa mesa de literatas, atrizes, pintoras, empresárias, sei lá... É amigo... toma tendência porque fudeu! Ou faz que nem eu e a dona Marta (a ex-ministra-sem-noção derrotada nas últimas eleições municipais, não a favela carioca “liberta” do tráfico pela Polícia): relaxa e goza.

E aí malandro, vai teimar em discutir sobre a política econômica em período de recessão e as conseqüências das bolhas especulativas ou vai aprender a ficar quieto e se esforçar para apresentar filés de frango acompanhados de alcachofras requintadas no jantar? Não que o destino do homem seja se render, passivo (ê, passivo não!) e acomodado (porra, passivo e acomodado é sacanagem!) aos pés das donzelas doutoras, mas já passou da hora de reconhecê-las e admirá-las. Quando perceber que aquela que sussurra sacanagens no seu ouvido, arranha suas costas e não deixa os seus vizinhos dormirem em paz com o barulho é a mesma que acorda contigo no outro dia, critica a articulação política dos tucanos no Senado e tripudia sarcasticamente dos comentários do Arnaldo Jabor e da coluna do Merval Pereira, aí meu nobre... aí você vai entender do prazer ao qual me refiro.

Garanto que no Centro do Rio, com quaisquer 50 merréis (ou menos que isso) você consegue um buraco pra esquentar a criança, dizer que ela é a maior já vista em todos os anos de carreira e que é capaz de proporcionar orgasmos múltiplos. Agora, se estamos tratando de companheiras, de musas das nossas poesias escondidas nas gavetas, do motivo pelo qual vamos parar dentro dos barris de chope nas noites de fossa, ou daquelas que têm o poder de, um dia, fazer com que marchemos voluntariamente para dentro de seus ninhos e nos obrigar a fechar a tampa do vaso, ouso parodiar o poetinha: “Me desculpem as burras, mas inteligência é fundamental”. A Amélia (aquela mesmo, que era mulher de verdade) além da maior vaidade, agora tem mestrado e tese publicada.

Poucas coisas são mais admiráveis do que a querida compondo figuras abstratas no ar com as pontas dos dedos tentando te explicar como era o quadro impressionista que viu em alguma exposição no final de semana, ou ajeitando insistentemente o cabelo enquanto, nervosa, discorda da sua leitura do último filme dos irmãos Cohen (ta, eu sei que o último filme não inspirou genialidade nem de longe). Só quem experimentou sabe o que é um dedinho delicado na cara revogando o direito de criticar a sua teoria sobre a distribuição de renda ou sobre a intervenção militar no Haiti, ou mesmo afirmar que sua interpretação da "Metamorfose" kafkaniana é ingênua e precipitada.

Para os primatas que ainda não suportam a idéia de ter ao lado uma mente que, sem muito esforço, produz astronomicamente mais que as suas, resta ouvir o Galvão nos domingos, comprar a Playboy da Ana Paula Oliveira e bradar: “Agora sim ela está no seu devido lugar. Onde já se viu? Mulher no futebol... era só o que faltava”

Quinta-feira

Pedacinho de desejo

"Nádegas é importantíssimo. Grave, porém, é o problema das saboneteiras. Uma mulher sem saboneteiras é como um rio sem pontes."
Vinícius de Moraes

Não passa das 7h quando aquele feixe de luz cortante rompe a escuridão do quarto pela costura mal refeita da cortina, que já pertencia ao ex-inquilino, e acerta diretamente no olho esquerdo do mambembe que, por ser sábado, acha um desaforo levantar antes das 10h. Não tem jeito. O dia chegou e não há como negociar um acordo, pois minutos depois começa a indesejada sinfonia dos sabiás, trinca-ferros, bem-te-vis e por aí vai. Conformado com a derrota, o sujeito se estica feito gato, se esparrama feito cachorro faz em chão gelado nos dias quentes e, enfim, se levanta. Enquanto se coça e pragueja o mundo, se dirige ao banheiro pra jogar um pouco de água gelada no rosto amassado.

O cheiro de café – o xarope contra o mau-humor matinal – o leva até a cozinha. Da porta o vagabundo já ouve os sambinhas da década de 30 e 40 que tocam na rádio pela manhã. Um sorrisinho de olhos fechados já se esboça até que ele entra, com os dois pés, na cozinha. E lá está ela, acordada, ainda de pijama – calcinha e uma blusa azul, de botões, surrupiada do armário masculino – com os cabelos mal presos por um lápis de cor, como quem goza da informalidade do lar, deixando uma mecha caída por sobre o rosto e a nuca exposta ao sol da manhã. É o céu matinal guardado aos remanescentes das bebedeiras! A maravilha divina das manhãs! A recompensa por, mesmo bêbado, ter dedicado a colcha pra que ela se enrolasse de noite, ou tê-la feito dormir com cafunés, ou mesmo ter cochichado um tímido “eu te amo” sinicamente ignorado por aquela que fingia já dormir.

Se o saudoso Poetinha, em sua fantástica obra, reservou um espacinho para a louvação das saboneteiras, eu, que não tenho obra nenhuma, me atrevo a louvar as nucas! Afinal, é óbvio que existe todo um conjunto da obra, toda uma conjunção de formas que dá certo, ou não, todavia, como já afirmara outro bom miserável, Xico Sá, “Mulher é metonímia, a parte pelo todo, sempre encontramos, naquela que se acha a mais feia das mulheres, um pedaço da anatomia capaz de provocar uma inexplicável razão de viver”. E, afirmo de cadeira, ô partezinha danada de boa que é a nuca! Não há bom sujeito que não se renda, prostrado, abobalhado, diante da beleza esguia de um pescocinho sem gogó (com exceções ao mais novo fenômeno do "curintia").

Todos os dias me ponho a rezar dando graças aos deuses Hercovitch, Chanel, Paul Smith, Dolce&Gabbana e demais fashion-fauna por terem trazido de volta a nós, adoradores do pescoço pelado, as arejadas nucas de fora, os cabelinhos curtos e ousados que desenham os ombros de nossas amadas. Se bem que confesso ainda não ter preferência entre cabelos curtos ou longos (desde que presos, é claro!). O que é fato, e contribui para a admiração dos nobres machos, é a mística que ronda as nucas das queridas donzelas. Atire a primeira pedra aquele que nunca se rendeu ao perfume doce escondido sob os cachos de uma mulher! Existem algumas mais maquiavélicas que, sabendo de toda a fantasia criada abaixo de suas orelhas, usam um perfume específico para essa parte da anatomia. E então, quando o malandro já está ébrio pelo perfume do corpo da moça, é surpreendido pela essência singular e luxuriosa que surge de seu pescoço.

Agora, não sei quanto aos rapazes de roupas de marca e músculos inchados nas noites de "Tum-ti-Tum", mas afirmo, com todas as letras, que nem mesmo os “feromônios” vendidos pela internet são tão eficientes quanto uma nuquinha molhada de samba. Ai ai, nessas horas que imagino Afrodite rainha de uma bateria embalada pelas Amazonas. Se uma doce menina quer, de uma vez por todas, trazer o partido, solícito, para a coleira que lhe é reservada, basta que ajeite o cabelo ao final de dois sambas sob o calor da noite carioca e deixe que o mancebo aproxime o rosto dos fios de cabelo grudados na nuca pelo suor. Não existe, no mundo, arma mais eficiente. Se o sujeito tiver barba a situação se torna mais crítica. Ao se despedir e, como um bom cavalheiro, deixar a sua querida devidamente segura em casa, ou na cama, caso compartilhem do mesmo lar, sua lembrança entrará em ação repassando os momentos de glória a cada vez que ele sentir o perfume entranhado em seus pêlos faciais. O dever de tomar banho passa a ser um suplício quando significa arrancar o cheiro feminino de si mesmo.

Para alegria geral da nação de machos, que as entidades do Olimpo das passarelas mantenham o nosso prazer de apreciar as nucas peladas. Ou, pelo menos, que tenhamos eternas manhãs com fadas vestidas com nossas blusas e lápis de cores e canetas prendendo as madeixas.

pelo pêlo e a mulher



"Pêlos são apêndices filiformes de origem dérmica e formados por queratina, que revestem a pele dos mamíferos, fornecendo-lhes proteção contra as diferenças de temperatura. Ou, tão-só, são hastes queratinizadas formadas pelo folículo piloso, lubrificadas por uma substância chamada sebo, produzidas pelas glândulas sebáceas. Sua espessura é a mais variada possível: varia de alguns centésimos de milímetros até 0,03 mm (nas barbas e sobrancelhas)."

Faz um tempo já que chegou, às terras brasileiras, uma modinha que tem afetado desde mocinhas até mesmo as exuberantes afilhadas de Balzac. Não imagino ao certo por que motivo ou influência, de uns tempos pra cá, entre tantas outras bobagens estéticas, as meninas começaram uma luta ferrenha contra seus pobres e adoráveis cachos púbicos. Para felicidade geral da nação de esteticistas e depiladoras, os tão sonhados e admirados ninhos vêm sendo devastados com o avanço da cultura estética imperialista no meio (literalmente) de nossas meninas. Já ouvi falar que esse tipo de “corte” é muito comum na parte norte do nosso continente americano, por exemplo. Mesmo assim, me sinto na obrigação de iniciar aqui uma campanha pela beleza de nossa gente e tradição. Não suporto a idéia de que, daqui a alguns anos, esteja deitado numa cama ao lado do meu companheiro nicotinoso recordando de saudosas sensações que podem não mais existir, como as provocadas por Sônia Braga encarnada na melhor lascívia inocente de Gabriela, pelo banho de piscina, “em pêlo”, de Claudia Raia no horário nobre em Deus nos acuda, sem contar dos inesquecíveis ensaios de Cláudia Ohana e Vera Fischer para a Playboy.

"É mais uma desgraça da modernidade!”, compartilhou meu guru amoroso e barbeiro, Joca, no alto dos seus 68 anos de vivência e maturidade. Não satisfeito, com a delicadeza que lhe é usual, o sábio senhor prosseguiu: “Porra! Como se não bastasse essas viadagens de homem que raspa o peito e faz a sobrancelha, agora mulher não gosta mais de pêlo. Daqui a pouco, você vai pra cama com a mulher e vai parecer que ta trepando com um desses manequins de loja”.

Como não poderia deixar de ser, meu parceiro de sueca está certo mais uma vez. O que seremos de nós, pobres adoradores da graça feminina se não tivermos mais nossa almofadinha macia pra recostar a cabeça depois de um dia difícil? Onde recordaremos perfume de nossas noites homéricas? Qual será a graça dos novos mancebos no esperado momento em que suas mãos, ainda trêmulas, conseguirem alcançar o interior das calças e saias femininas? O que será do prazer de sentir os dedos perdidos no emaranhado de cachos? E as brincadeiras? Os bigodinhos de Hitler, os corações, as fechaduras e toda as diversões proporcionadas pela surpresa de tirar a calcinha com os dentes?

Algumas dessas gazelas-pós-modernas-super-antenadas ainda nos querem convencer de que é mais higiênico. Não entendem elas que não falamos de um processo cirúrgico. Falamos do gosto, do cheiro, do suor, do orgânico, do tesão, de vida! Não se trata de unhas ou sobrancelhas. O bom sujeito pode até se sentir constrangido ao se deparar, no meio de seu ímpeto libidinoso e carnal, com aquela criatura (porque algumas parecem ter vida própria, independente da dona) desprotegida, à mercê dos perigos da vida, pronta pra pegar uma gripe com a primeira brisa da madrugada. Nem mesmo as gloriosas “série rosa” deveriam ousar um visual tão radical.

Gozozos de todo mundo, uni-vos! Pelo fim de uma vida sem pêlos, asseada, fria e sem tesão! Pela volta dos cabelos embolados, pela volta do pentelhinho da parceira misturado nos nossos, pela volta do cheiro de foda! Pela volta da mulher de verdade, da carne, e pelo fim dos manequins de shopping!